domingo, 23 de janeiro de 2011

457

Antonio Luceni

Devia ter uns 6 ou 7 anos quando fui para lá. 6 anos, isso, eram 6 porque meu irmão mais novo, o Lucivan, era bebê ainda. Fomos morar, como muitos nordestinos, na periferia da cidade, nos fundos da casa de um tio meu, num casebre minúsculo de dois cômodos e um banheiro. Imaginem só: uma família de sete pessoas, com cinco crianças, morando num aperto de 3 metros por 8. Era uma prisão horrorosa.
Éramos livres aos finais de semana, como prisioneiros em condicional. Íamos para casa de outros parentes que, assim como nós, tinham seus gestos emoldurados e contidos também por margens geográficoarquitetônicas. Liberdade, então, era apenas no percurso, feito em sua maioria a pé, já que o dinheiro do ônibus era para ser economizado.
Quando começamos a estudar, nosso quintal era o pátio da escola. Corríamos feito loucos para lá e para cá. E sempre tinha uma inspetora ou até mesmo uma servente ou zelador para tolher nossos voos: “Parem de correr seus pestinhas”.
Mas a verdade é que não consigo me desligar dela. Por mais preso que fôssemos, por mais precariedade que sofremos (e não foram poucas), não sei, alguma coisa de mágico sempre me atraiu para ela. Talvez suas próprias dimensões emanassem essa sensação de liberdade, ou ao menos a possibilidade para tal.
Lembro-me de uma situação, que hoje me causa riso ao revivê-la, em que num dos poucos e raros dias de passeio mais distante de casa, meu pai nos levou a brincar num parque. Na minha memória de infância havíamos subido em uma escada enorme, com infinitos degraus, povoando meus sonhos três por quatro. Hoje, quando volto para lá, rio sozinho: não passa de 3 metros! (A verdade é que sempre fui baixo demais!).
Nas minhas idas e vindas ao longo destes anos, cada vez que estou por lá é uma alegria renovada: gente nova, lugares novos, sempre em obras, como se vivesse numa espiral infindável (acho que isso é pleonasmo!) de se renovar sempre. A ideia de estar numa fila qualquer e ouvir gente falando em francês, inglês, alemão e tantas outras línguas que nem sei distinguir nacionalidade, é divina. Um mundo inteiro em um só lugar: nas comidas, no jeito de se vestir e postar, na arquitetura, no mendigo e crianças cheirando cola, nas piadas de feirantes e ambulantes, e nos blindados e grifes caras...
São Paulo é múltipla e, por isso, aceita a diversidade. Há quem fale mal dela, há quem a apedreje, há quem reclame de seus barulhos e vai-e-vem hipnotizante e cambaleante, mas a verdade é uma só: é o coração do Brasil. Este final de ano estava em Minas e, por conta das chuvas e enchentes que ocorrem nos dois estados, quase não encontrávamos nada de carnes e hortaliças nos mercados mineiros. “Por que tá tão ruim assim pra comprar?”, foi a pergunta. “É que os caminhões de São Paulo estão atrasados, moço.”, respondeu o açougueiro.
Não tenho terra a que me apegue. Já me defini muitas vezes como “vira-lata”. De nascimento sou nordestino, fui criado na capital, estudei e trabalho no interior de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, portanto não crio raízes. Mas se tivesse que eleger um lugar onde plantaria meu umbigo certamente seria São Paulo.
Nesses 457 anos de existência já devo ter repetido seu nome, pelo menos, umas 457 vezes.

Antonio Luceni é escritor e Coordenador Regional da União Brasileira de Escritores – UBE.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

HOMENAGEM DA MINHA AMIGA SALETE MARINI

Recebi esta homenagem da poeta Salete Marini (http://www.blogandonasala.blogspot.com/). Gostaria de partilhá-la com vocês. Obrigadão, amiga.

PALAVRAS... QUE ESTRANHA POTÊNCIA, A VOSSA!

Antonio Luceni dos Santos

Mestre em Letras – UFMS

Coordenador Regional da UBE Araçatuba e região

e-mail: aluceni@hotmail.com



Resumo

O presente trabalho pretende refletir sobre a relação que nós mantemos com a palavras em nosso cotidiano, sobretudo trazendo para discussão e prática uma relação mais harmônica e profícua com ela. Nesse sentido, buscaremos retomar vivências tanto de professores quanto de alunos como forma de (re)direcionar nossas leituras, a saber, com textos estéticos. Por meio das questões/provocações pretendemos, neste artigo, pensar nossas experiências com o texto literário como um dos elementos de alívio das tensões do cotidiano escolar.

Palavras-chave: Palavras, literatura, antologia, cotidiano, provocações.

1 INTRODUÇÃO

Tudo que pensamos, imaginamos, projetamos e fazemos é por meio da palavra. Nosso pensamento não é feito de uma substância mágica que de modo também sobrenatural é encaminhado. Não. Antes, tudo que realizamos é por meio da palavra.

Quando falamos (palavras): “Como é fulano?”, obtemos como resposta (palavras), por exemplo: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.”2

Se quisermos retomar o passado e vivenciar este ou aquele momento de nossa vida iremos fazê-lo por meio da palavra: “Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!"3.

Do mesmo modo, todos nossos planos futuros estão sob o domínio da palavra: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei”4.

As grandes e pequenas histórias da humanidade estão registradas por meio da palavra: O Pentateuco, atribuído a Moisés; Ilíada e Odisseia, de Homero; Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões e Macunaíma, de Mário de Andrade são alguns exemplos de (auto)identificação do povo por meio de seu repertório escrito e, especificamente nos casos ilustrados acima, estéticos, de ficção.

Tendo em vista o exposto antes e acreditando que nossa autoimagem é constituída, em partes, pela relação que mantemos com as palavras, algumas questões são necessárias. A primeira e mais óbvia é: a) Quais palavras fazem parte de nosso repertório enquanto educadores? Depois, fazendo um recorte para sala de aula: b) Quais palavras fazem parte do repertório de nossos alunos? E, por último, (mas não a última): c) Quais provocações a escola pode fazer para que tanto professores quanto alunos sejam “formados” por um melhor repertório de palavras? Fiquemos nestas questões.

2 Quais palavras fazem parte do nosso repertório?

Quando nos referimos a “nosso repertório” estamos pensando na perspectiva de educadores e de adultos que somos. Nesse sentido, também gostaríamos que as reflexões proposta aqui caminhassem nesta perspectiva: a de educadores e adultos.

Educadores retomando a nossa própria formação, as experiências que tivemos com leitura e com o livro, os autores e obras que conhecemos, os livros de que mais gostamos, aqueles que mexeram conosco, que nos pegaram no primeiro parágrafo...

Educadores a partir de nossas leituras diárias, as palavras com as quais nos identificamos diariamente, quais elegemos para fazerem parte de nosso vocabulário, do nosso “falar difícil” em reuniões pedagógicas, em palestras e aulas ministradas etc.

Educadores e nossa formação continuada, nos grupos de estudos que frequentamos, nos cursos de especialização, mestrado, doutorado etc. que temos feito ou com pretensão de fazer.

Educadores que têm um repertório de vida e de palavras mais amadurecido, mais adequado para cada uma das situações e que fazem uso da linguagem (principalmente da verbal oral e escrita e em Língua Portuguesa) de forma consciente, intencional...

Trazemos, nesse momento, a reflexão de Jorge Larrosa Bondía, quando diz:

As palavras produzem sentido, criam realidade e (...) funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “racionar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido é algo que tem a ver com nossas palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. BONDÍA, (1999).

Concordamos inteiramente com ele porque também acreditamos no poder transformador da palavra. E não estamos tratando de nenhuma seita ou conceito transcendental, não. Estamos tratando aqui do sentido prático da linguagem. Daquela carga semântica que é atribuída a cada uma das palavras conforme a relação que cada falando, de cada povo e cultura, depositou nela através dos séculos e séculos. Por essa razão quando dizemos para alguém “Eu te amo” isso deve estar cheio de sentido de verdade; quando falamos “Deus o abençoe” que seja tudo isso que entendemos e desejamos por “Deus” e “benção”; assim como quando pensarmos em “desgraçado” ou “amaldiçoado” compreendamos, antes, que sentimentos e sensações estas palavras despertarão no atingido por elas.

O que é mais gostoso ouvir?:

“Amor: 1. afeição profunda; 2. objeto dessa afeição; 3. Conjuntos de fenômenos cerebrais e afetivos que constituem o instinto sexual; 4. Coisa ou pessoa bonita, preciosa; 5. Afeto a pessoa ou coisa; 6. Relação amorosa; 7. Entusiasmo, paixão; 8. Inclinação sexual forte por outra pessoa; 9. A pessoa amada; 10. Cobiça; 11. Veneração; 12. Caridade.” (RIOS, 1999).

Ou:

“Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer./ É um não querer mais que bem querer;/ é um andar solitário / entre a gente;/ é nunca contentar-se de contente;/ é um cuidar que ganha em se perder./ É querer estar preso por vontade;/ é servir a quem vence, o vencedor;/ é ter com quem nos mata, lealdade./ Mas como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade,/ se tão contrário a si é o mesmo Amor?” ?(CAMÕES, 2004).

Não gostaríamos de direcionar as respostas, mas certamente o segundo texto é muito mais atrativo. E o interessante é que em ambos os casos o objeto de discussão é o AMOR. É bem verdade que necessitamos dos dois textos. Não cabe aqui excluir um e deixar com que o outro “reine soberanamente” em nossas mentes ou de nossas crianças e adolescentes. Por isso mesmo, o contrário também vale. Por vezes aplicamos uma “overdose” de textos técnicos em nossas salas de aula e o texto estético, de ficção, a poesia... aparecem como “perfumaria”, “pano-de-fundo” para uma “grandeloquente estrela”, personagem principal.

Então, quais palavras fazem parte de seu repertório? Como você se relaciona com as palavras diariamente? Seu vocabulário é um “quase-robô” (com palavras “secas”, mecânicas, pobres de significados...) ou é um solo fértil em que há possibilidades de sensações e significados? Precisamos “engravidar”5 as palavras...

2 Quais palavras fazem parte do repertório de nossos alunos?

É a outra ponta, não é mesmo? A sala de aula é feita, principalmente, por esta alquimia: professor e aluno. É dessa relação que as coisas acontecem (para o bem ou para o mal). É para esta relação que está dedicada a maior parte da carga horária dos 200 dias letivos, das pontes e feriados (ou você não corrige provas e prepara atividades nesses dias?!), das comemorações e festas escolares... Então, é esta relação de pessoas-palavras que merece as atenções, as leituras, as palavras...

É lógico que não devemos generalizar. Também não temos nenhuma base científica para afirmar categoricamente o que vamos dizer. Mas partindo da experiência que temos em sala de aula e também de depoimentos que ouvimos, lemos e vemos diariamente por meio de jornais, revistas, blogs, televisão, escolas etc. não é difícil concluir que muito, infelizmente, do que é dito, escrito e pensado por nossos alunos (e estamos falando de crianças, adolescentes e jovens) é atravessado de maledicência, de aspereza, de truculência e de depreciação para ficar nos adjetivos mais comportados.

No tratamento que dispensam, em grande parte, uns para com os outros, na maneira como muitos respondem (às vezes agridem) professores, coordenadores e diretores, nas palavras que registram em carteiras, cadeiras, portas e paredes, muros e fachadas, cadernos e livros... fica claro que universo de palavras os constituem. Um cenário bastante ruim, em minha opinião.

Certa vez estava saindo de uma das escolas municipais de Araçatuba e, ao entrar no carro, ouvi a seguinte frase de uma criança para outra: “Para com isso, sua desgraça.”. Fiquei chocado com aquilo porque nunca gostei desta palavra: DESGRAÇA. Sempre que a ouvia me incomodava. Não gostava de pronunciar e nem de ouvi-la. Parei o carro ao lado dos dois meninos e disse para que não repetissem mais aquilo.

Comentei num grupo de estudo no outro dia e minha amiga, diretora da Rede Municipal, Elis Avelhaneda, conseguiu me acalmar: “Antonio, pense em DEZ GRAÇAS!”. Ela nem sabe, mas me salvou! Arrumou um jeito de eu me relacionar com essa palavra. Hoje, sempre que a ouço penso em DEZ graças.

O exemplo é simples, por isso convidamos você a pensar nas palavras que tem ouvido e lido de seus alunos, quais palavras que os constituem, qual carga (se positiva ou negativa) predomina na formação dessas crianças.

É lógico que outras questões orbitam nessa, como a que formação estas crianças estão submetidas, a que condições sociais vivem cada uma delas, a que oportunidades tiveram acesso de leitura, de saberes, de palavras... É por isso que antecipamos no começo deste artigo que não seriam somente três perguntas que resolveriam o problema. Mas não cabem aqui serem discutidas. Não temos tempo para isso. A provocação é no sentido de constatação. Ou seja, precisamos oferecer um novo repertório de palavras para nossas crianças diferente dos que elas já têm.

Aí passamos para terceira (mas não última!) pergunta.

3. Quais provocações a escola pode fazer para que tanto professores quanto alunos sejam “formados” por um melhor repertório de palavras?

Na primeira pergunta deste artigo propusemos um primeiro olhar para a própria formação do professor, seu cotidiano com a leitura, com as palavras, o modus operandi utilizado por ele para se relacionar com os textos, principalmente os estéticos. Na segunda questão buscamos pensar um pouco sobre o universo da palavra no universo da escola, da vida do aluno e, a partir desses universos, estabelecer a relação entre eles. Nesta terceira questão estamos propondo uma PROVOCAÇÃO. Sim, porque entendemos que muito do que é bem feito nas escolas e salas de aula brasileiras é resultado de uma provocação, de um desafio.

Como diria Monteiro Lobato, “Livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês.”. E o que é por “debaixo do nariz” se não uma provocação? Neste ponto envolvemos os vários personagens-participantes da escola: diretor, coordenador, professor, funcionários, gestores, pais de alunos, comunidade com um todo... no sentido de serem PROVOCADORES. Quais provocações temos feito com relação à palavra, à leitura?

O professor pode provocar o aluno com a palavra selecionando um livro, um poema ou qualquer outro texto (de preferência literário/estético/poético) para iniciar e/ou terminar a aula. Pode selecionar um dos dias da semana para fazer um “pique-nique literário” ou uma discussão a partir de textos de que alunos mais gostaram de ler durante o mês.

O coordenador pedagógico pode provocar professor e alunos discutindo projetos e propostas para o uso de cantos de leitura nas salas de aula, no uso da biblioteca, numa olimpíada de leitura ou no convite de avós ou pessoas da comunidade ao entorno da unidade escolar para contarem histórias para as turmas ou até mesmo alunos mais velhos contando histórias para os mais novos.

O diretor pode ser um grande provocador de leitura e de palavras ao comprar bons livros mensalmente a partir de lista apresentada por professores e alunos, na solicitação de verbas para construção, ampliação ou adequação de bibliotecas, salas de leitura, treinamento de pessoal, adequação de mobiliário etc. etc. etc. Pode, também, com coordenadores, professores e comunidade em geral, traçar ações e propor metas para a apreensão de habilidades e competências leitoras nos Planos Políticos Pedagógicos, nos Planos de Cursos, Planos de Aula e Semanários, nas discussões que fazem parte das HTPCs (Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo) e HTPPs (Horas de Trabalho no desenvolvimento de Projetos e Pequisas), ou seja, PENSAR e PLANEJAR ações de leitura que tenham vazão a curto, médio e longo prazo e que tenham METAS e PROPÓSITOS distintos para cada uma das séries que compõem a Educação Infantil e Ensino Fundamental contempladas em nosso Sistema Municipal de Ensino.

Como podemos observar, as provocações podem ser muitas e feitas pelas várias personas que (inter)agem com e na escola.

3.1 Algumas provocações literárias...

Como forma de dar o exemplo, sugiromos abaixo algumas obras e seus respectivos autores. São sugestões de gêneros variados e para os mais diferentes gostos (quem quiser provar de tudo, fique à vontade!). Claro que é somente uma provocação... Quão difícil para um leitor voraz sugerir títulos, autores, textos... Mas certamente aí vão algumas leituras que, sem dúvida, de algum modo irão seduzir quem quer que entre em contato com elas. Como deixa José Paulo Paes no subtítulo do livro É isso ali6, (outra provocação!) textos adulto-infanto-juvenis.

Pegue cada um deles. Leia-os saborosamente. Deguste cada uma de suas palavras, misture os sabores delas, forme novos sabores, coloque mais este ou aquele tempero, deixe gelar por um tempo (tem palavras e textos que precisam ficar um tempo “na geladeira” para serem saboreado de forma mais gostosa). Faça a sua sobremesa, coma-a, partilhe-a, coloque-a debaixo de muitos narizes!

Título/Autor/Editora


O menino que descobriu as palavras/ Cineas Santos/ Ática

Guilherme Augusto de Araújo Fernandes/ Mem Fox/ Brinque Book

É isso ali/ José Paulo Paes/ Salamandra

19 poemas desengonçados/ Ricardo Azevedo/ Ática

Dona Baratinha/ Ana Maria Machado/ FTD

Menina bonita do laço de fita/ Ana Maria Machado/ Ática

Uni, duni, tê/ Ângela Lago/ Moderna

O pequeno príncipe/ Antoine de Saint-Exupéry/ Agir

A casa sonolenta/ Audrey Wood/ Ática

Coração não toma sol/ Bartolomeu Campos de Queirós/ FTD

As palavras voam/ Cecília Meireles/ Moderna

A vida íntima de Laura/ Clarice Lispector/ Rocco

O tesouro na rua/ Cristovam Buarque/ Rosa dos tempos

Nós/ Eva Furnari/ Global

A fada que tinha ideias/ Fernanda Lopes de Almeida/ Ática

Um gato chamado gatinho/ Ferreira Gullar/ Salamandra

A terra dos meninos pelados/ Graciliano Ramos/ Record

O menino poeta/ Henriqueta Lisboa/ Global

Pode me beijar se quiser/ Ivan Ângelo/ Ática

Alice no País das Maravilhas/ Lewis Carroll/ Summus

A bolsa amarela/ Lygia Bojunga Nunes/ Casa Lygia Bojunga

O fazedor de amanhecer/ Manoel de Barros/ Salamandra

A moça tecelã/ Marina Colasanti/ Global

O homem que soltava pum /Mário Prata/ Caramelo

O batalhão das letras/ Mário Quintana/ Global

Cacho de histórias/ Eliardo França/ Mary e Eliardo França

O menino do dedo verde/ Maurice Druon/ José Olympio

Nó na garganta/ Mirna Pinsky/ Brasiliense

Reinações de Narizinho/ Monteiro Lobato/ Brasiliense

O fantástico mistério de Feiurinha/ Pedro Bandeira/ FTD

Viva a diferença/ Roberto Caldas/ Paulus

A galinha xadrez/ Rogério Trezza/ Brinque Book

Classificados poéticos/ Roseana Murray/ Nacional

O menino que quase virou cachorro/ Ruth Rocha/ Melhoramentos

33 ciberpoemas e uma fábula virtual/ Sérgio Caparelli/ L&PM Editores

O peru de peruca/ Sônia Junqueira/ Ática

Chora não...!/ Sylvia Orthof/ Atual

Cançãozinha e outros sons/ Tatiana Belinky/ Paulinas

Layla Terezinha/ Alvarenga/ Miguilim

A arca de Noé/ Vinicius de Moraes/ Companhia das Letras

A cortina da tia Bá/ Virginia Woolf/ Ática

Flicts/ Ziraldo/ Melhoramentos

É lógico que você precisará de algum tempo para ler todos estes livros. Mas, com certeza, você já provou de alguns deles, não é mesmo? Que sabor teve? Como foi a experiência? Você o partilhou com seus alunos ou com outros colegas da escola, da família, da sua relação de amizades? Como é dividir palavras gostosas? Palavras que fazem bem tanto para quem fala quanto para quem as ouve? Será que as crianças, adolescentes e jovens gostariam de ouvi-las? Será que depois também não irão partilhá-las? Dividi-las com suas famílias e amigos, com as pessoas de seu bairro? Será que quando precisarem resgatar e oferecer alguma palavra terão repertório para isso? Pensamos que sim.

4. Considerações finais

Quando tomamos consciência de que nossa relação com a palavra é algo corriqueiro e constante, também nos apropriamos da importância de se relacionar com ela (ou com as várias palavras que compõem nosso cotidiano) de forma mais profícua e corroborativa.

Pensar no espaço escolar (também) como um espaço privilegiado para o tratamento e uso de palavras a partir de textos que circulam nos bancos, pátios e outros ambientes escolares é dar condições para que os vários agentes educativos (gestores, professores, alunos, familiares etc.) se revistam de um repertório que ajude o outro, que o estimule à reflexão, que sensibilize para temas importantes a partir de universos distintos, de expectativas particulares, de experiências significativas etc.

Relacionar-se com a palavra sob múltiplas maneiras é também atender às necessidades comunicativas da própria língua: para cada situação um uso, para cada intenção uma seleção específica. Se possível, os textos de ficção e poesia, já que, a nosso ver, há pouco espaço (apesar dos avanços) ainda para eles e porque são os que mais dão espaço ao poder das palavras.

Dito de outro modo, propusemos ao longo deste artigo pensar na relação que mantemos com as palavras, inclusive e, até certo ponto, principalmente na escola, visto ser um dos poucos (e para alguns único) locais em que há oportunidade de se tratar deste tema, as possibilidades de uso da palavra.

Esperamos que as reflexões aqui levantadas sirvam, como indicado no começo, para provocar outras, para ampliar repertórios, para propiciar o diálogo (ou os diálogos) referentes ao tema e que, de forma muito prática e objetiva, partamos para AÇÃO.

5. Bibliografia

RIOS, Dermival Ribeiro. Minidicionário escolar da língua portuguesa. São Paulo: DCL, 1999.

CAMÕES, Luis Vaz de. Sonetos de Luis de Camoes. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

BONDÍA, Jorge Larrosa. Pedagogia profana. Belo Horizonte/MG: Autêntica, 1999.

Referências:

1 Título baseado em verso do poema Romance LIII ou Das palavras aéreas, de Cecília Meireles, in: Romanceiro da Inconfidência, 1ª edição, Ed. Nova Fronteira, 2005.

2 Trecho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, 1ª edição, LP&M Editores, 1997.

3 Versos do poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, in: Casimiro de Abreu – obra completa, 1ª edição, Ed. G. Ermakoff, 2010.

4 Versos de Manuel Bandeira, do poema Vou-me embora pra Pasárgada, in: Manuel Bandeira – Poesia Completa e Prosa, 1ª edição, Ed. Nova Aguilar, 2009.

5 Referência a um termo cunhado pelo educador Paulo Freire quando dizia que as palavras deveriam ser semeadas pelo mundo, “mas não quaisquer palavras, mas as grávidas de mundo”, presente no livro Dicionário Paulo Freire – Danilo R. Streck (org.), 2ª Edição, Ed. Autêntica, 2008.

6 É isso ali, José Paulo Paes, 2ª edição, Ed. Salamandra, 2005.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A ESCOLA E O SUPERMERCADO DOS PRAZERES

Fotografia: Felipe Zig

Por Maurício Guilherme Silva Jr.

Marcada pela incessante busca de sensações, a sociedade contemporânea costuma relacionar tudo aos movimentos e demandas do consumo. Diversas questões, no entanto, dizem respeito a lógicas humanistas, que ultrapassam os códigos econômicos e ressaltam a importância da diversidade e da diferença. Principalmente na educação, ressalta o professor da Universidade de Barcelona e doutor em Filosofia da Educação, Jorge Larrosa Bondía (foto acima), as experiências pessoais fazem com que a escola, "essa máquina aparentemente unitária", torne-se infinita.

Larrosa: a escola "escolariza" tudo o que toca

Como o senhor analisa o sistema educacional no mundo? Que países seriam modelos de educação?

Estudei com um sociólogo, na Inglaterra, que não entendia a existência de uma disciplina chamada "educação comparada". Ela sugere uma série de sistemas educativos espalhados pelos países. Este meu colega, no entanto, não via diferença em estar numa escola em Xangai, Buenos Aires ou nos Estados Unidos. A máquina escolar é semelhante em todos os lugares. Ao mesmo tempo, se você mantém-se atento a como as pessoas dão sentido a suas experiências escolares, percebemos que essa máquina, aparentemente unitária, é infinita. Não saberia dizer, pois, quais países são modelos de sistemas educativos. Eu acho que é tarefa de cada um achar seu próprio lugar e encontrar seus interlocutores. Hoje, você pode se entender melhor com pessoas que moram em outra parte do mundo. Ao mesmo tempo, pode não ter afinidades com as pessoas que moram próximas a você. O mundo é menor e, ao mesmo tempo, maior do que nunca.

Como os professores podem aliar, ao aprendizado formal, as leituras cotidianas de seus alunos?

É bom lembrar que, em alguns lugares do mundo, a leitura não faz parte do cotidiano das pessoas. Isso não é bom, nem ruim. Seria ruim sob o ponto de vista iluminista, segundo o qual a leitura é capaz de construir diferenças entre os homens. Em relação à forma como a escola trata as experiências de leitura das pessoas, eu diria que a instituição de ensino é um aparelho de recontextualização. A escola desloca textos de seus "lugares naturais", da produção e do consumo, e os põe em um território diferente. A escola "escolariza" tudo o que toca. Literatura, na escola, não se mantém literatura. Os preceitos escolares submetem tudo à sua dinâmica.

E quais as principais diferenças entre estudar e ler?

Na essência, não haveria qualquer diferença, já que a palavra "estudo" significa "leitura". O critério de diferenciação estaria, hoje, no prazer, na fruição. Se você observa os discursos pedagógicos sobre o ato de ler, quase todos insistem na ideia de que seria preciso recuperar, na escola, o lado lúdico e prazeroso da leitura. Mas pensar a escola como uma máquina de prazer é contraditório. Ao mesmo tempo, exigir que a leitura seja absolutamente prazerosa é também uma forma de simplificar as coisas. A ideia de sempre vincular a leitura ao bem-estar diz respeito a este mundo que se tem convertido numa enorme máquina de compra e distribuição de prazer. Imagine a escola tendo que competir com esse supermercado das sensações!

Como o senhor analisa o papel das novas tecnologias em relação ao futuro das práticas de leitura?

Em Dom Quixote, de Cervantes, o padre e outra personagem fazem críticas aos livros de cavalaria consumidos pelo povo. Para eles, tais obras não estariam à altura do que realmente deveria ser lido. Até hoje, as classes abastadas criticam as práticas de leitura, sob o ponto de vista do que consideram interessante a ser lido. Essa crítica está ligada, inclusive, às novas tecnologias. Neste caso, há uma divisão entre os apocalípticos e os integrados. Alguns acham que o livro e a ideia de memória e de tradição desaparecerão por força da cultura da imagem. Esse é o discurso apocalíptico. De outro lado, há aqueles que veem as novas tecnologias como solução para o mundo. Não acredito em nenhuma das duas ideias. Tudo, na verdade, está submetido a uma série de controles políticos, ideológicos e morais.

Mas não seria prejudicial o acesso diário a um grande volume de informações?

Isso remonta à ideia de que a leitura é uma prática lenta, isolada, silenciosa, demorada e que constrói um tempo diferenciado do ritmo cotidiano. Trata-se de um imaginário de leitura que, na verdade, nunca existiu. Contudo, as tecnologias realmente têm mudado a relação das pessoas com o tempo. Para uma pessoa como eu, que dedicou boa parte da vida ao estudo da leitura, seria de se esperar um discurso contra a internet e a favor da cultura do livro. No entanto, talvez a cultura do livro nunca tenha sido o que as pessoas imaginaram.

O que pode ser feito para ampliar a relação entre arte e educação?

A relação da educação com a arte, desde os gregos, é constitutiva. Educação é inconcebível fora da cultura de seu tempo. Além disso, os processos educacionais são pensados como arte, e não como técnica. Portanto, a pergunta sobre como relacionar arte e educação, na essência, não tem sentido. Mas hoje a questão ganhou significado porque essa relação não é mais tão clara. O cinema, por exemplo, faz parte da cultura de nosso tempo. Seria impensável, pois, uma teoria educativa que não considere a sétima arte como algo importante. Educação, em resumo, precisa se relacionar com a cultura do presente. Do contrário, transforma-se em prática de adestramento.


* JORGE LARROSA BONDÍA é doutor em pedagogia pela Universidade de Barcelona, Espanha, onde atualmente é professor titular de filosofia da educação. Publicou diversos artigos em periódicos brasileiros e tem dois livros traduzidos para o português: Imagens do outro (Vozes, 1998) e Pedagogia profana (Autêntica, 1999).

domingo, 16 de janeiro de 2011

600

Antonio Luceni

Outro dia escrevi aqui sobre os problemas que vários municípios enfrentam quando este período de chuvas chega. Sem mesmo presumir o terrível mal que assolaria nossa nação, já via coisas tristes.
Falei da minha experiência com as goteiras de minha casa sobre minha cabeça e de meus familiares. Disse também das noites quase-dormidas à mercê da chuva. Comentei sobre os sapos que tínhamos que chutar para atravessar a rua de casa alagada e dos dias trabalhados com as roupas encharcadas.
Triste, é verdade. Mas nada comparado com o que estamos ouvindo e vendo nos últimos dias. E aquele salvamento daquela mulher sobre a laje de sua (ex) casa? Coisa triste, não? Salva por uma corda improvisada, a partir da dedicação de dois vizinhos dispostos e corajosos. E aquele bebê de apenas seis meses de idade que ficou soterrado por mais de doze horas? Saiu assustado, impressionado com tudo aquilo, mas sem chorar, sem dimensionar tudo o que estava acontecendo, inclusive consigo mesmo.
Entre tantos outros casos igualmente marcantes para nós e, principalmente, para os sobreviventes e para os familiares dos mortos. (Corpos sendo enterrados às dezenas, em valas comuns, nos quintais de suas próprias casas).
Na primeira entrevista dada pela presidenta Dilma à impressa, disse uma frase com a qual concordo em gênero, número e intensidade: “No Brasil, a construção irregular não é exceção, mas a regra”. Por esse motivo que no artigo da semana passada afirmei que enchentes eram um assunto, entre outros, de questão política.
Lógico. O planejamento de uma cidade deve ser cuidado por seus gestores. Iluminação, esgoto, pavimentação, poda, limpeza de terrenos abandonados, adequação e uso de solo etc., etc. etc... E isso não é um problema deste ou daquele município. De modo geral, todas as cidades fazem vistas grossas para estas questões. Até ocorrerem fatos como os que estamos presenciando.
E podemos acrescentar à inércia de ações governamentais outros episódios sociais nocivos como a dengue, invasões de terras produtivas, o analfabetismo, a calamidade na saúde e segurança públicas da grande lista que poderíamos fazer aqui. Não são assuntos fáceis, é verdade, mas precisam ser encarados.
Também uma ideia louca, mas nem por isso inviável, me veio nos momentos em que eu pensava sobre esse assunto: por que os senadores, deputados e vereadores dos estados e municípios atingidos pelas chuvas não abrem mão de três ou quatro meses de salário e utilizam do dinheiro que recebem para construção de casas populares aos desabrigados da chuva? Não resolveria o problema, mas certamente faria diferença para as famílias que fossem contempladas. Melhoraria um pouco a imagem de nossos políticos e fariam jus ao gordo aumento que tiveram. Assistencialismo? Não. Coerência. (Para quem pensa que os referidos políticos ficariam sem salário, engano. Muitos deles têm o cargo político como uma “profissão” paralela).
O que tem de 600? O número aproximado de mortos até o momento. Mas não são apenas um número, não. São vidas que deixam saudades e um rastro de amizade, um cheiro na camisa, uma risada inimitável entre tantos outros gestos na memória dos que ficam.

Antonio Luceni é escritor e Coordenador Regional da União Brasileira de Escritores – UBE.

domingo, 9 de janeiro de 2011

TRAVESSEIRO ENCHARCADO

Antonio Luceni

Todo início de ano é a mesma história: enchentes para todos os lados e, com elas, desabamentos, mortes, soterramentos... E não são somente físicos, não; metafóricos e psicológicos também.
Com as chuvas, desabam sonhos e inundam corações de tristeza.
Convivi por muitos anos com uma maldita goteira que ficava sobre minha cama, especificamente sobre meu travesseiro. Ela pingava e eu acordava. Desviava a cabeça do lugar ou dormia no lugar dos pés, torcendo para noite acabar. No outro dia trocava a telha, mas não adiantava: ela surgia novamente do nada.
Do nada, não. É que a casa era coberta por três ou quatro tipos de telhas romanas. Resultado de uma troca que meu pai fez na ocasião para cobrir a casa: um rádio velho por as tais telhas. Até hoje estão por lá.
As chuvas desabam e, com elas, encharcam sonhos. Quantas vezes eu, meus irmãos e meus pais saímos debaixo de chuva para trabalhar e estudar. Atravessávamos a rua Santo André inteira, desde a travessa Sérgio Cardoso até a avenida Prestes Maia, em Araçatuba, a pé, chutando sapos e com lama até as canelas. Trabalhávamos ensopados ou, pelo menos, molhados da cintura para baixo.
Certa vez, uma calha foi rompida na cozinha de casa em meio a um temporal e ficamos com um “chafariz” natural bem no meio da área de serviço, sem poder fazer nada, além de pegar um rodo e tentar expurgar ao máximo a água para fora.
Perdermos vários móveis entre sofás, guarda-roupas e colchões por conta das chuvas em excesso. A seca é ruim, é verdade. A poeira irrita a garganta, bota fama às donas de casa de relapsas, suja os colarinhos das camisas... Mas as águas do exagero são bem piores e, talvez, a maioria de vocês, amigos leitores, não sabe o que é isso. Acreditem: é algo triste.
Fico vendo e lendo essas notícias todas pela tevê, jornal e internet sobre os desabrigados e vitimados da chuva e retomo os dias ruins pelos quais passei na adolescência e parte da vida adulta. Cada vez que escuto sobre os encharcados das chuvas fico matutando num modo viável para poder ajudar.
Aquela goteira que me incomodava sobre meu travesseiro ainda me acompanha. Agora, batendo sobre minha consciência e, ao mesmo tempo, fazendo com que eu também me desperte com relação a esse tema – vítimas das chuvas – que, para muitos (sobretudo os que não sofrem com enchentes) não significa muita coisa.
Mais uma vez essa discussão passa pelas questões políticas e sociais. Há que se pensar nas vítimas das chuvas antes mesmo de que estas assim sejam conhecidas. Depois, não vale a pena chorar o travesseiro encharcado.
Quem tem coragem pra isso?

Antonio Luceni é escritor, Coordenador Regional da União Brasileira de Escritores – UBE.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ANO NOVO, VIDA NOVA!



Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

Quando em agosto do ano passado começamos a organizar aquele que foi o primeiro evento da União Brasileira de Escritores – UBE em nossa região, o 1º Encontro de Escritores Independentes de Araçatuba e Região – ENESIAR, várias parcerias foram efetivadas. Uma delas com a Folha da Região.
A Folha fez a cobertura de todo o evento, participando efetivamente com seus profissionais numa das mesas de discussão e, gentilmente, presenteou o Núcleo UBE com esta coluna. Não precisamos dizer que ficamos muito alegres, isto porque todo escritor quer ter seus textos publicados e não servindo de alimento para traças.
Pois é, a partir dessa semana os amantes das letras, da leitura e da literatura poderão acompanhar um pouco das ações da União Brasileira de Escritores, além de textos de caráter estético, por meio de seus associados, neste espaço.
Estarão presentes nestas linhas resenhas e críticas de livros literários, poemas, crônicas, contos, artigos técnicos de nossos associados e/ou de autoridades ligadas à União Brasileira de Escritores em âmbito nacional, além de novidades no campo da literatura e do livro.
Esperamos que, com esse trabalho, a literatura, bem como muitas das questões que orbitam a ela, seja fortalecida em nossa região e entendida como algo imprescindível à condição humana, como bem lembra Antonio Candido nos livros “Direito à Literatura” e “Literatura e Sociedade”.
Aproveitamos a oportunidade, também, para convidar a todos os escritores da nossa região para que se mostrem e que entrem em contato conosco, a fim de criarmos uma rede literária na região noroeste do estado de São Paulo. Encaminhe um e-mail com seus dados (nome completo, profissão, cidade e e-mail para contato) e receba notícias sobre as atividades da UBE (concursos literários, coletâneas de texto, cursos e palestras etc.).
Gostaríamos, aqui, de agradecer publicamente à Diretora Presidente da Folha da Região, Ana Eliza Lemos Senche, pela oportunidade que nos foi dada e pelo apoio à divulgação da palavra impressa. Este gesto traduz parte do respeito e da seriedade com que tão importantes instituições – a Folha da Região e a União Brasileira de Escritores – têm para com a veiculação de textos da mais alta qualidade e que contribuem para que seus leitores tenham um senso crítico e visão de mundo mais apurados.
Enfatizamos, ainda, que esta coluna é voltada para todos os associados da União Brasileira de Escritores em nossa região. Por esse motivo, os associados que desejarem publicar seus textos neste espaço devem acessar o blog: www.blogdaube.blogspot.com e lá obter todas as informações de que necessitam para fazê-lo. Críticas e sugestões sempre serão bem recebidas. Deixe suas impressões e comentários no blog e, dentro das possibilidades, elas serão absorvidas e abordadas neste espaço.
No mais, o que queremos é fazer com que o máximo de pessoas sejam melhoradas a partir da literatura, da palavra. Vamos, juntos, fazer de nossa região uma região de leitores.
Um feliz 2011 para todos.

Antonio Luceni é escritor e Coordenador Regional da União Brasileira de Escritores – UBE.

domingo, 2 de janeiro de 2011

PERU DESFIADO

Antonio Luceni

Pegam-se as partes, desfiam-se todas, acrescentam-se novos ingredientes como salsinha bem picada, cebola, alho, pimenta calabresa, sal a gosto e... pronto. É só misturar bem tudo, levar ao forno e deixar aquecer por aproximadamente trinta minutos. Depois é só servir com uma salada de legumes e arroz branco.
Já não aguentava mais aquela criatura enchendo o saco com receitinhas de mau gosto. Tudo bem que a moda agora é aproveitar tudo, reciclar as coisas, mas comida? E ainda por cima um trem ruim que doía. Eu não, gosto de comer direito. Pelo menos isso, não é mesmo? A gente já não tem o carro que queria, a casa com os móveis desejados, a viagem do sonho sempre adiada... mas comida, não. Teria que ser de primeira categoria.
A árvore já estava sendo desmontada, os enfeites e penduricalhos devidamente guardados, as capas de almofadas, as toalhas de mesa, castiçais e velas sobressalentes... tudo era embrulhado para ficar mais um ano à espera das entusiasmadas mãos que os desembrulhariam no final daquele ano.
As visitas desocupavam a casa (algumas fariam falta, outras, nem tanto), tudo retomava o ritmo de antes e a normalidade entediante, mas de algum modo desejada, seria renovada fazendo parte de mais um ano que se iniciava.
Teria que ouvir as mesmas frases e comentários dos amigos de trabalho. Teria que rever o velho chefe com a tromba mais comprida do mundo, como se fosse culpado por ter férias, décimo terceiro salário, feriados mil...
Será que saberia como operacionar o computador novamente? Será que seus clientes ainda o estariam esperando? Estava com uma vontade louca de que alguns tivessem mudado de fornecedor. Coisa chata ter que lidar com alguns deles.
— Pedro, acorda... sai daí. Deixa eu limpar o sofá, anda.
— Quê? Quê que foi?...
Nem poder fazer suas ilações era possível. Não sabia o que era pior: se ficar em casa suportando a patroa ou se no serviço o patrão.
— Essa coisa de feriado é como encher a cara. Quando começa é bom, mas depois para aguentar a ressaca...
E ficou pensando em tudo, em coisas banais, em preguiças, em desejos impossíveis, em coisas exequíveis e outras nem tanto, em coisas dizíveis e em outras jamais pronunciáveis.
— E esse desfiado horrível de peru, já tá pronto?

Antonio Luceni é escritor, Coordenador Regional da União Brasileira de Escritores – UBE.

domingo, 26 de dezembro de 2010

SURTO DE BONDADE

Antonio Luceni


 
Minha sobrinha Letícia vivenciou de verdade pela primeira vez um Natal. Ganhou vários presentes, mas um deles foi responsável por tirar-lhe o fôlego: uma boneca, de meu irmão Lúcio.
Segurou a caixa, ainda envolta pela embalagem, rasgou-a o mais depressa e da melhor maneira que pôde (ela ainda tem um ano e meio) e a emoção indisfarçável: os olhos brilhando, o ventre murcho por um suspiro, e o sorriso largo na boca. Ficou com a boneca o dia inteiro para lá e para cá.
Esta cena me fez pensar um pouco sobre o que as coisas podem fazer conosco, o poder que aquilo que ganhamos tem sobre nossas ações, nossas atitudes.
Tem muita gente que ganha, que recebe um bem ou um dom para ser melhor para ele e para os outros. Por exemplo, um médico que dedica sua vida a tratar de gente e que, além das consultas cobradas, também se submete à compaixão em oferecer seus serviços, o dom que recebeu, para os que não podem pagá-lo.
Outro exemplo? Alguém que, mesmo vivendo em glória, em riquezas, em honrarias, deixa o seu trono e vem morar ao lado da pobreza, dos mais necessitados, dos famintos e desprezados.
E não estou falando necessariamente de riqueza material – apesar de nos dois exemplos dados isso estar presente. A riqueza aqui apresentada é metafórica. Há muita gente pobre financeiramente que é tão mesquinha quanto muito rico esnobe. (Lembro-me, por exemplo, de Dora, personagem de Fernanda Montenegro, em Central do Brasil, que era tão pobre quanto mesquinha).
É uma máxima, acho que de Maquiavel, que para se conhecer alguém basta dar-lhe poder. Pois é, devo concordar um pouco com isso. Muitos usam dos poderes que têm (políticos, religiosos, financeiros etc.) para subjugar o outro, para tirar-lhe o mínimo que tem, para ignorá-lo em sua insignificância a que a vida já o destinou.
Outros, entretanto, procuram fazer uso dos dons que receberam, que ganharam, como algo bom para todos, para uma sociedade mais justa, mais inclusiva, mais equitativa.
É comum no final de cada ano – em virtude das festas de natal e ano novo – acontecerem surtos de bondade, de fraternidade, de compaixão (e isso não é ruim de tudo: garante o pão daqueles dias para os que não têm o que comer o ano todo). Mas não resolve os problemas. A preocupação com o semelhante deve perdurar os 365 dias do ano, a prontidão e o sempre-alerta precisam ser algo constante. (Não há tanta barriga que caiba tantas doações de uma só vez, nem tão pouco são osso para que seja enterrado e procurado em outros momentos de necessidade).

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE e Diretor do Núcleo UBE Araçatuba e Região.

domingo, 19 de dezembro de 2010

2000 e Dez!

“Grandes coisas fez o Senhor por nós, por isso, estamos alegres.” Sl. 126.3

Sempre que algo é iniciado em nossas vidas muitas expectativas são criadas, várias projeções são feitas, e uma vontade danada de que tudo dê certo. Cada ação é pensada no sentido de contribuir para essa busca do acerto, do sucesso.
Quando este ano começou também fiquei na expectativa de muitas coisas. Foi uma mudança brusca em minha vida. Um ciclo de ações havia se encerrado e um novo momento se esboçava em minha frente.
Já integrando a equipe da Secretaria Municipal da Educação, a convite da Secretária Beatriz Soares Nogueira, tinha o desafio de dinamizar os projetos e proposta de leitura e literatura relacionadas à Rede Municipal.
Hoje, essa realidade no campo da leitura e do livro já está bem diferente – e é voz unânime, para melhor – a partir da implantação de grupos de estudo em leitura, das sondagens das bibliotecas e espaços de leitura, da distribuição e atualização de acervos literários, do seminário da leitura e literatura voltado especialmente para questões da infância, de concursos de texto dirigidos para professores, gestores e alunos, da adesão de 100% da Rede na Olimpíada de Língua Portuguesa (MEC/CENPEC), entre outras tantas ações cotidianas que não cabem ser elencadas nesse momento.
Também, neste ano, fui convidado, por meio da diretoria da União Brasileira de Escritores – UBE, a assumir o Núcleo Regional da instituição, continuando o legado das mais de cinco décadas de atuação da UBE no Brasil. Missão penosa, mas que resolvi encarar. E, para isso, convidei as amigas e escritoras Marilurdes Martins Campezi, Wanilda Costa Borghi e Duxtei Vinhas Ítavo.
Os primeiros frutos já surgiram pouco mais de três meses de nossa posse – em agosto, na 21ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo –, com a realização do 1º Encontro de Escritores Independentes de Araçatuba e Região – ENESIAR, ocorrido no último sábado, no auditório do SENAC, grandemente prestigiado por vários escritores de nossa região, com as dignas presenças de nosso Presidente Nacional, escritor Joaquim Maria Botelho, e de nosso Diretor de Integração Nacional, escritor Menalton Braff, além de convidados especiais.
Foi voz corrente o sucesso do evento e a satisfação de seus participantes.
Estas coisas precisam ser registradas para que, mais para frente, quando outros continuarem estas ações ou resolverem ampliá-las e melhorá-las (sim, porque não devemos nos considerar insubstituíveis, nem tão pouco donos da razão – de imortal, somente o nome), poderem se apoiar num caminho já trilhado, em veredas já abertas, em alicerces construídos... Assim colaboramos com as gerações futuras: facilitando o caminho. (Já reparou quanta gente gosta de atrapalhar a caminhada dos outros?).
Foi neste ano que também o pequeno Miguel, meu sobrinho mais novo, veio ao mundo, deixando nossa família mais feliz com a presença dele. (As crianças são anjos disfarçados, e ficam entre a gente para nos ajudar a vencer batalhas. Nosso Miguel é um anjo vencedor desde o nascimento).
Muitas coisas fez o Senhor por nós, por esse motivo estamos muito alegres.
2000 e 10 foi dez!

Antonio Luceni é escritor e professor universitário. Coordenador do Núcleo UBE Araçatuba e Região.

sábado, 18 de dezembro de 2010

DISCURSO DE POSSE DO NÚCLEO UBE ARAÇATUBA E REGIÃO



Bom dia nosso Presidente Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE, escritor e jornalista Joaquim Maria Botelho; bom dia ao nosso Secretário de Integração Nacional, Menalton Braff; bom dia ao senhor prefeito Aparecido Sério da Silva e demais autoridades presentes; bom dia a todos os escritores presentes; bom dia aos amantes da leitura literatura; bom dia a todos.
Gostaria de iniciar este meu discurso AGRADECENDO.
Primeiramente a Deus, por ter nos concedido vida e oportunidade de estar aqui, refletindo sobre leitura, sobre literatura, sobre a nossa própria condição humana. Afinal, como afirma Antonio Candido, no seu livro Direito a Literatura:
“Por isso a luta pelos direitos humanos pressupõe a consideração de tais problemas e chegando mais perto do tema (literatura), eu lembraria que são bens incompressíveis não os que asseguram sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura?”
Gostaria de agradecer também à instituição a que pertenço desde 2007, a mais antiga e das mais atuantes no Brasil, União Brasileira de Escritores – UBE, na pessoa de nosso Presidente, Joaquim Maria, e pelo convite para assumir o 1º Núcleo da UBE no estado de São Paulo, hoje já com seis espalhados por todo Brasil. Ao mesmo tempo, parabenizar a atual administração pela iniciativa de descentralizar as ações da UBE e estimular a atuação da Instituição, por meio de seus associados, nos vários cantos do Brasil, possibilitando-nos vez e voz, às várias nuanças de escritores, às particularidades de cada região do País etc.
Gostaria de agradecer às minhas parceiras, bandeirantes do Núcleo UBE em nossa região, as escritoras: Marilurdes Martins Campezi (Lula), Duxtei Vinhas Ítavo e Wanilda Maria Meira Costa Borghi, que aceitaram o convite e o desafio de implantarmos o Núcleo por estas terras e de dar vida às várias ações que sonhamos no campo da literatura e do livro, tendo este encontro como primeira delas.
Gostaria de agradecer aos parceiros deste evento, sem os quais não poderíamos realizá-lo: ao Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC, por meio de seu gerente, Sr. Emmanuel Flores de Andrade; à Secretaria Municipal de Educação, por meio da secretária Profa. Beatriz Soares Nogueira; à Secretaria Municipal de Cultura, pelo apoio na divulgação; à Câmara Municipal de Araçatuba, na pessoa da vereadora Durvalina Gomes Garcia; à Academia Araçatubense de Letras, nesta mesa representada pelo acadêmico Francisco Antonio Ferreira Tito Damzao; ao jornal Folha da Região, em nome de Ana Elisa Lemos Senche e da editora-chefe, Maria Antonia Dario; ao Unicolégio Objetivo, em nome de seu Diretor Geral, meu amigo, Prof. Joaribes Juca Torquato; ao cartunista Walmir Orlandeli pela comunicação visual do encontro e criação da logomarca do Núcleo; à Livraria Educação e Cultura – MEC, por meio das parceiras Simone e Denise; à Gráfica Araçatubense, pelo material impresso do evento, em nome de Seu Ferreira; a todas as diretoras, professores e funcionários do Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba, pelo engajamento; a todos os estudantes universitários presentes e a todos que contribuíram divulgando, estimulando, fazendo suas inscrições. Não gostaria de dizer nomes para não ser injusto com ninguém.
MUITO OBRIGADO A TODOS.

Falar em literatura e livro para mim é sempre um grande prazer. Se no princípio era o Verbo, isto é, a PALAVRA e se a PALAVRA se fez carne e habitou entre nós, somos carne da mesma carne, ou seja, somos PALAVRAS.
A literatura e livro fazem parte da minha vida, estão entranhados em mim. Levanto, trabalho, cochilo e durmo com as palavras orbitando em minha vida.
O curso de Letras foi escolhido de propósito, assim que saí do magistério. Lá tive oportunidade de me aprofundar em algo que há muito me seduzia, me fascinava, me fazia enxergar o mundo sob várias óticas (de escritores, de teóricos, de poetas, de pessoas simples do povo, como Patativa do Assaré e Cora Coralina).
Foi lá, também, que conheci figuras interessantíssimas, como o professor e poeta Tito Damazo, o querido Valdir Mendonça, a entusiasmada Ester Mian, entre outros. A pós-graduação em Literatura Infantil e o mestrado em Poesia contribuíram para que cada vez mais eu fosse cheio de boas palavras...
Ai palavras, ai palavras... que estranha potência, a vossa!
Foi nos corredores da Faculdade de Letras da Toledo que também conheci um certo professor de Literatura Portuguesa, com o qual acabei depois me apegando,  escritor de mão cheia e grande mentor da Academia Araçatubense de Letras, Célio Pinheiro.
As palavras que por muito tempo foram suas amigas e, com ele, ajudaram construir cabeças de tantos outros alunos no curso de Letras, hoje, o traem na memória, que virou flashs de lembrança. Entretanto, ele nunca as abandonou.
Gostaria de dedicar este encontro a ele.

EU SOU PALAVRAS...
Falo a partir de mim menos por vaidade e mais por verdade, já que é a pessoa que suponho conhecer melhor, portanto com mais condições de criticar, de validar ou não as ações.
E um garoto que só teve oportunidade de se aproximar dos livros aos 7, 8 anos de idade a partir de uma cartilha, “Caminho Suave”. Vejam que nem é um livro tão interessante assim.
Quero trazer meu exemplo aqui, aproveitando de tão seleto público – secretários municipais, vereadores, escritores, professores, estudantes, e comunidade em geral – para discutirmos e pensarmos literatura, leitura na sociedade como algo IMPRESCINDÍVEL para nossa formação, para nosso engajamento enquanto cidadãos, para manutenção de nossa saúde mental – a fantasia é necessária para o ser humano, entre outras coisas, porque o livra da loucura.
Quem pensa no livro, na literatura, na leitura como produto de alienação ou como “perfumaria”, pensa pequeno.

EU FUI SALVO PELA PALAVRA.
A vida toda morei em periferia e estudei em escola pública. Sempre tivemos, eu e minha família, privações em nossa vida material e financeira. Passamos duros bocados com o alimento singular sobre a mesa (e isso não é nenhuma metáfora), com uma chinela havaiana (no tempo em que havaiana era coisa de pobre) de uma cor em um pé e de outra noutro, com roupas apertadas feitas pelas mãos calejadas de minha mãe, numa velha máquina Singer.
O jeito que eu encontrava para respirar um pouco e sair, ainda que mentalmente, daquele contexto ruim era lendo.
Lia coisas de Monteiro Lobato, os textos de Júlio Verne, os romances de Machado, de José de Alencar, as novelas de Jorge Amado, muitos contos (meu gênero predileto) de Dalton Trevisan, Luiz Vilela, João Gilberto Nol... Poesia? Drummond, Mário Quintana, Manoel de Barros, o Bandeira, Maria Angela Alvim... E tudo isso me salvou.

AS PALAVRAS ME SALVARAM.
Como todo garoto de periferia, tive oportunidade de ir para o crime, para as drogas, para o conformismo (aliás, as letras me salvaram do inconformismo também: não é porque tinha aquela vida que estava fadado a morrer daquele jeito). Pelo contrário, cada vez que saía de um livro (e até hoje é assim) percebia que podia ser diferente, que podia fazer diferente, que podia pensar diferente.
LITERATURA, leitura não são coisas para poucos iluminados, privilegiados, não. Ela é para quem a quer. Não faz distinção se é preto, se é branco, se é azul ou colorido; se tem grana ou se é um durango kid, se homem ou mulher, se jovem ou criança, não importa. ELA ACOLHE A TODOS.
É por isso que cada um que está aqui é importante. Não importa se é escritor conceituado ou anônimo, se escreve em papel ou na internet, se é professor, diretor ou agente de serviços gerais... vocês não estão fazendo VOLUME aqui. Cada um que aqui está é importante. Cada um que está aqui pode fazer a diferença utilizando-se da LEITURA E DA LITERATURA em suas vidas e na vida de cada um que está à sua volta.
Aí me perguntaram: Por que INDEPENDENTES? Ora, e não somos não?
Não somos nós que corremos para lá e para cá para poder publicar? Depois não somos nós que ou corremos atrás de um patrocínio ou tiramos dinheiro do bolso para pagar um coquetelzinho com vinho de segunda classe e salgadinhos frios para a noite do lançamento? Não somos nós que de porta em porta batemos para que este ou aquele amigo (e às vezes até inimigo) venha nos prestigiar e comprar nosso livro?
Não somos nós que, com o dinheiro do nosso bolso, ficamos para baixo e para cima lançando livro, participando de eventos de literatura, de leitura etc?
Agora, é lógico que a dependência institucional e das parcerias todos nós temos. Não somos uma ilha, precisamos uns dos outros. TODOS nós estamos ligados a um “cordão umbilical” do universo, dependentes de alguma coisa, que a gente nem sabe explicar, para continuarmos vivos.
Então? Não somos INDEPENDENTES?

SOMOS DEPENDENTES, também, já que cabe a cada um de nós estimular a leitura. A LEITURA E A LITERATURA são de responsabilidade de TODOS.
Se estão presentes aqui representações das mais diferentes esferas sociais é porque entendemos a leitura e a literatura como um bem inalienável de todos nós. E aí, como iremos fazer aqui nesta manhã, cada um pensar como pode atuar para que isso aconteça: O LEGISLATIVO: De que forma pode pensar em leis ou indicações de leis e projetos para privilegiar a presença do livro e da literatura nos municípios de nossa região, no estímulo e apoio ao escritor? O EXECUTIVO: O que pode fazer para que o maior número de pessoas (crianças, jovens e adultos) possa ler? Acesso gratuito à internet? bilbiotecas públicas nos bairros e em todas as escolas? projetos nas praças aos finais de semana? O que pode ser feito? A SOCIEDADE CIVIL: Como se mobilizar para provocar a leitura dentro de cada residência, em cada bairro com bibliotecas comunitárias, com saraus de poesia etc? AS ASSOCIAÇÕES LIGADAS AO LIVRO E À LITERATURA: Organizando concursos? ministrando oficinas de leitura e de criação literária junto à comunidade? distribuindo livros? promovendo encontros, debates, palestras, mesas de discussão, chats temáticos? aproximando as pessoas do livro? do computador? etc.
TODOS nós PODEMOS FAZER alguma coisa. TODOS nós SOMOS BENEFICIADOS quando fazemos alguma coisa. Mas todo esforço exige energia, disposição, sair do lugar. Com isso, o cansaço vem, o desgaste também, mas vem também a alegria de ver pessoas envolvidas com cultura, com arte, com leitura, com literatura e longe de tantas outras coisas que corroem a sociedade como um câncer.
Estamos muito felizes, eu e minhas parceiras Lula, Duxtei e Wanilda, com a instalação da UBE em nossa região. Mas, ao mesmo tempo, imbuídos de forte responsabilidade por levar adiante o trabalho sério e significativo de tão importante e conceituada Instituição que é a União Brasileira de Escritores. O legado deixado por escritores como Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Paulo Duarte, Afonso Schmidt, Fábio Lucas e, atualmente, pelos confrades Lygia Fagundes Telles, Frei Beto, Lia Luft, Antonio Candido, entre tantos outros precisa ser extensivo em nossa região, e isto não é tarefa fácil, mas estamos dispostos a cumpri-la.
Gostaria de encerrar a minha fala raptando um verso de Drummond no poema Infância:
"E eu nem sabia que a minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé!"

SEJAM TODOS BEM-VINDOS AO PRIMEIRO ENCONTRO DE ESCRITORES INDEPENDENTES DE ARAÇATUBA E REGIÃO.