sexta-feira, 17 de maio de 2013

O espírito “materno" de Zaha Hadid



Nesta semana que começou com o dia das mães, pensei em escrever sobre uma arquiteta que, apesar de não evidenciar seu espírito materno, carrega consigo o principal sentido que as mulheres têm por natureza, o de mãe. Dizem por aí que as mulheres já nascem mães, mas não posso garantir que esse é o caso de Zaha Hadid. Entretanto, se filhos biológicos não fazem parte de sua hisória, Hadid, tem de sobra os filhos de “pedra”, e é uma cambada. São edifícios, móveis, utensílios e quadros espalhados por todo o mundo, por toda parte, de todos os tipos, mas para um único gosto. Aqui, neste artigo, me proponho a falar sobre Zaha Hadid e seu espírito “materno”.

Um dos principais nomes da arquitetura atualmente, Zaha Hadid não é só peculiar por ser a única mulher no circuito internacional da arquitetura. Iraquiana, nascida em Bagdá em 1950, Hadid formou-se em matemática antes de cursar arquitetura na prestigiosa Architectural Association em Londres. Sua formação foi agraciada por referências diversas, tornando a sua obra uma expressão cultural ampla e heterogênea em que se mesclam as raizes do mundo árabe e abstrações dos artistas suprematistas, passando pelo rigor da Bauhaus com as sugestões do informal e do pop, até a adesão ao modernismo com a energia relacionada aos conceitos matemáticos de campo e fluxo. Achou confuso? Então você entendeu o espírito do trabalho da arquiteta. Dividida entre a prática e academia, Hadid experimenta novos conceitos, frequentemente caminhado entre os campos da arquitetura, urbanismo, design e artes plásticas.
A arquiteta e um de seus experimentos: um vestido

Mas nem só de pose descolada para fotos e figurino alternativo sobrevive um bom arquiteto. Hadid constantemente usa seus desenhos e pinturas como instrumento de exploração do processo de projeto. Em muitos projetos, a arquiteta representa os conceitos por meio de telas inspiradas no suprematismo e mostra-se desde o início fascinada pelas vanguardas do século XX. Como aponta Guccione, “é esclarecedor o título de sua tese de graduação, Malevitch’s Tectonik, uma evidente referência à obra do mestre do suprematismo (Kazimir Malevitch, 1872-1935), que inspira o jogo de composição de uma estrutura coberta construída sobre o Tâmisa, a partir do exemplo da Ponte Vecchio em Florença”.

Malevitch’s Tektonik, 1976-1977, pintura.


The Peak, 1983, pintura

Seus projetos são classificados pelos críticos como fundamentais e indispensáveis representantes do movimento arquitetônico chamado desconstrutivista e chamam a atenção pelo singular modo de representação. Vencedora do Prêmio Pritzker, o  mais importante prêmio de arquitetura, Hadid tem um trabalho inovador e provocativo. Como escreveu uma das jurdadas do mesmo concurso, Ada Louise Huxtable: ‘A geometria fragmentada e a fluidez de Hadid fazem mais do que criar uma forma dinâmica e abstrada; o trabalho da arquiteta explora e expressa o mundo em que nós vivemos”. Sem muito medo das críticas, Zaha ainda se aventura com destreza no mundo do design e entre suas criações estão: sapatos para a marca brasileira Melissa; lanchas Z-boat e sofás para a B&B Itália.

fonte: dzeen.com


fonte: www.dzeen.com
fonte: www.dzeen.com
Seus edifícios também são carregados de uma carga expressiva. No MAXXI (Museu de arte do século XXI) em Roma, a arquiteta encaixa o prédio nas lacunas da cidade histórica de forma líquida e natural. A vocação do terreno é celebrada em um projeto que aparentemente é dissonante e abstrato, quando na verdade, parece pertencer ao local ao espalhar suas raízes. De certa forma, o edifício tem uma configuração fluida tanto externa quanto internamente.

fonte: www.archdaily.com
Ao entrar pelo saguão principal, o visitante logo é convidado ao passeio após visualizar com facilidade seus espaços contínuos. Numa experiência estética profunda, há quem diga que passear pelo museu não estimula apenas o sentido visual,  mas explora sensações térmicas e táteis. (Não posso confirmar tais informações já que não estive presente fisicamente no local).

fonte: www.archdaily.com
 E parece que Hadid faz o que faz com a certeza e consciência alimentadas pela sua cultura plural. Iraquiana e Londrina, matemática e arquiteta, Hadid não deixa dúvidas de que seu trabalho é um retrato de sua personalidade única. Nem sempre os filhos se parecem com os progenitores, no caso de Hadid, não restam dúvidas. É evidente que nos encanamentos de seus edifícios, corre sangue iraquiano. Para a arquiteta:

“a arquitetura deve oferecer prazer. Ao entrar num espaço arquitetônico, as pessoas deveriam  vivenciar uma sensação de harmonia, como se estivessem numa paisagem natural, para além das dimensões ou do valor econômico. Nisto consiste o meu conceito pessoal de luxo: é algo que não tem nada a ver com o preço, mas com as emoções que a arquitetura consegue transmitir. Basta pensar na praia de Copacabana: é um lugar maravilhoso, tem uma areia belíssima em grande escala para todos: este é o objetivo da arquitetura.” 

fonte: www.archdaily.com


Em entrevista a Hanno Rauterberg, a arquiteta completa:
“As pessoas ficam perguntanto se as mulheres trabalham diferentemente dos homens, Eu só posso dizer que não sei. Nunca fui homem. Entretanto, é óbvio que amaioria dos clientes não gosta muito de lidar com uma mulher. É preciso uma iraquiana para mostrar-lhes como.”


quinta-feira, 16 de maio de 2013

WILMA GOTTARDI



A artista em sua residência

Olá, pessoal, tudo bem? Bom, conforme anunciado aqui no blog na semana passada, começamos a partir de hoje uma série de entrevistas com artistas plásticos de Araçatuba, com o intuito de mostrar um pouco da arte de nossa gente, do que pensam e o modo como se relacionam com o seu ofício. Começo com esta que é uma grande artista em nossa cidade e que, particularmente, nutro grande admiração por ela: Wilma Gottardi.

Wilma Gottardi é formada em biologia pelo Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas IBILCE/UNESP de São José do Rio Preto. Sempre se interessou por arte. Empresária, montou e manteve o antiquário Art Nouveau por muitos anos em Araçatuba. Mas foi depois de aposentada que começou a se dedicar exclusivamente às artes plásticas. Fez vários cursos de história da arte com diferentes professores e cursos de técnicas e suportes variados em diversos ateliês, entre os quais com Gilson Pedro (Masp), Arnaldo Aparecido Filho, Márcia Porto (Fare Arte), Cacilda da Costa e Silva, Suely Dabus, Célia Molina, entre outros.

É admiradora de diferentes artistas plásticos, cada qual com sua forma de a cativar, seja a partir da cor, forma, expressividade, tema etc... Entre eles cita: Matisse por conta do uso da cor; Picasso, pelo inventividade e inovação na forma; Pau Klee, pelo trabalho com o abstracionismo; Salvador Dalí e sua visão de “loucura” do mundo; Andy Warhol com o seu diálogo contemporâneo da sociedade; Frida Kahlo e toda sua ousadia e criatividade; Van Gogh e a expressividade em seus trabalhos. Dos artistas brasileiros faz menção a Almeida Junior e todo seu registro de crônica visual de um Brasil colonial e do povo simples nas telas; Lasar Segall e todo seu vigor e crítica social, Portinari e a grande ruptura da arte moderna brasileira; Tarsila do Amaral e Djanira, mulheres fortes e de uma inteligência incrível; Hélio Oiticica, Debret e outros...

Participou de diferentes mostras individuais e coletivas, entre elas: Exposição de Arte e Mobiliário (Araçatuba Clube, 1987); Sarau com o músico José Calixto Marques de Oliveira (1988); Exposição de Arte de pintores brasileiros e europeus (1988); Mostra Coletiva de Arte (Araçatuba Shopping, 1996); Mulhearte – Farearte (1997); Mostra do Dia Internacional da Mulher (Banco Banespa, 1999); História das Artes Plásticas no século XXI (Banco do Brasil, 2001); Araçatuba com Arte (2003).

Dedica-se, na atualidade, ao uso de pigmentos com aglutinantes na confecção de tintas aquarela, juntamente com Norma Fonseca. E como expressão dessa pesquisa, estão em curso uma série de trabalho feito com base na técnica mencionada.

Sobre arte, entende que “é a percepção aprimorada do mundo, e é vital para a cultura da sociedade com um todo”. O mundo todo, no entender da artista, aprecia, pratica, resgata e projeta arte com o propósito de entender a espécie humana e como uma forma de nutrição mística. Diz que em Araçatuba praticamos um microcosmo do que acontece no Brasil, com movimentos esparsos e isolados de muito boa qualidade. Na região, menciona Penápolis como sendo a cidade que sempre se sobressaiu nas artes plásticas, sobretudo na arte Naif e seu Museu do Sol. 

“Uma educação pela arte é, sem dúvida, o melhor caminho para fazer com que a arte seja algo mais presente em nossa vida”, argumenta Wilma Gottardi. Portanto, a escola está intimamente ligada a esse objetivo, no entender da artista. E esse movimento começou desde o momento em que o ensino obrigatório de arte foi retomado. “Agora, é lógico, precisa ser aprimorado, melhorado dia a dia”, sentencia.

Ela compara um mundo sem arte com uma pessoa que não tem seus sentidos: não vê, não ouve, não senti, não fala... “Coitado do mundo, coitados de nós sem arte!”. Para ela, o que há de principal em seu trabalho é a cor. A forma que ele adquire, o suporte e técnica que usa são todos em favor da cor. Argumenta que o Brasil é colorido, o homem é um dos poucos bichos que tem o privilégio de enxergar colorido e da forma como enxergamos. “Amo a cor por isso, tenho o privilégio de ver e o Brasil é colorido em tudo, não é mesmo?”, finaliza.

Sobre o ofício de ser artista, confidencia: “O trabalho deve ser duro, quase que obsessivo, constante. Mas a busca pela felicidade é o principal. É muito complexo o trabalho do artista. O processo todo envolve tantos itens que uma vez experimentados devem gerar um produto que emocione, para o bem ou para o mal. A impressão que se tem é que precisamos reiniciar eternamente todo processo. É nesse jogo que tomamos consciência de que não podemos viver sem arte”.

Algumas obras da artista:

Natureza morta - uma das primeiras telas pintadas pela artista

Aquarela com pássaros - a biológa e a artistas juntas
Estes trabalhos são os mais recentes, resultados da
pequisa que a artita vem realizando na confecção de aquarela.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

FILMES QUE DÃO PANO PRA MANGA





Ao pensar em qual seria o próximo tema a relacionar com a sétima arte, busquei no imaginário e, imediatamente, me ocorreu “por que não o Figurino dos filmes?”. Quem não se lembra dos ternos e sapatos que John Travolta usou em Os Embalos de Sábado a Noite (1978) e do chapéu de Indiana Jones (1984) que sacramentou o seu estilo? Há filmes que tornam seus figurinos inesquecíveis,  sem contar os bons resultados de bilheteria, prêmios, fãs, seguidores e glamour. É isso mesmo, o Cinema dita a moda. O que se vê é a união de duas indústrias: Moda e Cinema. Essa dupla se tornou infalível para o sucesso das produções cinematográficas.

O assunto exige muita pesquisa por parte da equipe responsável, e o Cinema com seu jeito próprio percorre vários ambientes compartilhados, seja nos documentários ou nas ficções e, sem exceção, essa relação esbarra no universo fashion, apresentado por meio dos figurinos criados para os personagens/atores. Simplificando o assunto, um figurino bem elaborado –  de acordo com a proposta das cores, moldes, cenários e acessórios – tem papel decisivo no resultado do filme. E, não à toa, que o Oscar (a mais importante honraria da sétima arte) premia a categoria Melhor Figurino desde 1948. Vale lembrar que nem sempre o melhor figurino garante o sucesso de bilheteria, mas ajuda muito.

Alguns figurinos conseguem marcar por longa data nossa memória, como o vestido esvoaçante que Marilyn Monroe usou ao interpretar uma garota em “O pecado mora ao lado” (1955). Mesmo que não tenha assistido ao filme, com certeza vai se lembrar da cena.




Os filmes, de modo geral, apresentam a moda por meio de seus trajes, sejam eles vestidos clássicos, ou as jaquetas irreverentes, as calças cigarretes, ou ainda nos cortes e penteados de cabelo, cada um à sua época e ao seu papel de fio condutor do modismo. Em A Dama de Ferro (2012), a cor azul foi predominante nos modelos de Margaret Thatcher – vivida por Meryl Streep. Entretanto, o legado de sua vaidade fica por conta da perfeição no cabelo; sem descuidar um minuto dos penteados, criou sua assinatura de estilo e postura inabalável.

O cinema pode ser considerado como uma sala de aprendizagem, não só da moda, mas de outros aspectos culturais. Comparo-o a uma colcha de retalhos, em que cada profissional, com sua particularidade se relaciona com o filme. Pra dizer que roupa o personagem deve usar, o figurinista lê o roteiro e, junto com o diretor de arte, pesquisa e cria a roupa indicada aos personagens; ele pensa na ação do ator em cena, determina o tempo e espaço da trama cinematográfica,  a  época em que tudo acontece etc...  A expectativa criada pelo figurinista tem que ser desvendada pelo espectador, que vai interpretar as indumentárias, os acessórios, os penteados e o composê que se forma na criação do figurino. É aí que nossa imaginação vai longe..... Os filmes de época traduzem bem isso, com a sensação de encanto e sedução que pertinentes ao tempo onde ocorre a história. Assim como as produções dos filmes evoluíram, os figurinos também marcaram sua trajetória nessa combinação, que já vem de longa data.

E aí vão algumas películas que marcaram presença com seus figurinos: o clássico do cinema infantil, Alice nos País das Maravilhas (2010) foi regravado e contou com peças em seu figurino  nas quais o capricho nos detalhes, com ar sombrio e de suspense, levou a figurinista  (a mesma de Chicago) a tomar o cuidado em demonstrar Alice, diferente das que são comercializadas, como fantasia e, ainda, lidar com a presença da computação gráfica. O resultado foi o melhor possível. O filme levou a estatueta do Oscar em 2011 de melhor figurino.
Em 2006, O Diabo Veste Prada, com um enorme sucesso de bilheteria, foi uma adaptação do best-seller que leva o mesmo nome. Baseado na história de uma assistente pessoal da famosa editora da revista Vogue americana.  Anne Hathaway vive a inocente assistente de Miranda (a editora megera), interpretada pelo ícone do cinema atual, Meryl  Streep. O show fica por conta do disputado e luxuoso mundo da moda e das maravilhosas produções de marcas famosas como: Hermès, Chanel, Vivienne Westwood e lógico, Prada.

Ainda em 2006, Zuzu Angel, com produção brasileira, retrata nesse comovente filme a fama e o reconhecimento da estilista brasileira Zuzu e, ao mesmo tempo, o sequestro de seu filho (ativista contra a ditadura) pelo Centro de Informações da Aeronáutica. Vale a pena ver!
A década de 1980 tem o destaque de Os Intocáveis, em 1987, que mostra a releitura do figurino dos gângsteres que, envolvidos em seus ternos impecáveis de Giorgio Armani,  combatem  as atividades ilegais de Al Capone, na época da lei seca em Chicago.
Audrey Hepburn brilhou em 1961 com o célebre filme Bonequinha de Luxo, em um de seus mais importantes papéis, usando o famoso vestido preto, na abertura do filme. Peça que foi leiloada em 2006 por cerca de U$ 800, sendo o segundo maior preço alcançado em leilão por uma peça do cinema.
E o vento levou..., em 1939, marcou época (sempre vale lembrar) com produção americana, que narra o romance conturbado entre uma jovem mimada e um homem riquíssimo. Os vestidos da personagem principal Scarlett O’Hara, interpretada por Vivian Leigh, mostra com riqueza os detalhes e evolução das peças durante as cenas. Com certeza são vestidos que instigam o universo feminino.


Nos musicais, o ritmo lança a ideia das vestes, que deve permitir o enlaçamento perfeito entre ator, personagem, roteiro e nuances. Em Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001), estrelado por Ewan McGregor e Nicole Kidmam, levou também o prêmio do Oscar de Melhor Figurino.  

Por hoje é isso. Desejo que continue cinemando e aproveite para escolher em qual estrela seu guarda-roupa será inspirado, porque esse assunto dá pano pra manga.... Até mais.


O que tá rolando:

AMOR (2013)– O filme é da Áustria e, com 5 indicações ao Oscar, levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Por contar a história de um casal de idosos o drama conquistou a crítica cinematográfica.

O que já rolou:
Orgulho e Preconceito (2006) – Romance que narra a trajetória de cinco irmãs que buscam um bom casamento em meio a tumultuada relação entre Elizabeth e Darcy. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Tropeiros, rendeiras, doutores e poetas




De que são feitas as identidades culturais de um povo? Quais são os ingredientes que formatam o jeito de ser e de viver de uma gente? O que vai no “caldo de cultura” de uma nação e a faz única, particular?
Uma das coisas mais agradáveis, para mim, ao visitar uma cidade, país ou mesmo um bairro é sentir o sentimento de “singularidade” daquela comunidade. O jeito de falar, de vestir, de comer, de interagir com o outro é muito entusiasmador.  Tinha essa sensação quando era criança ao visitar algum parente. Ao sair da rotina da casa dos meus pais e ao provar de temperos diferentes na comida servida por um tio ou pelos meus avós; ao ouvir outras conversas e temas que não eram, a priore  do meu interesse; ao assistir a outros programas de tevê, sem ao menos poder me queixar com quem quer que fosse... Tudo isso ia me forjando um ser humano melhor. Era por meio da diferença, da multiplicidade de pensamentos – nem sempre convergentes com os meus – que eu, paulatinamente, ia sendo melhorado do ponto de vista dos valores, das relações humanas.
Sou serevino, já disse isso algumas vezes por aqui. E, apesar das muitas desvantagens em sê-lo, há uma imensa vantagem: experenciar as nuanças da vida. Já morei em São Paulo – a megalópole brasileira – e, já há alguns anos, resido em Araçatuba. Tenho em mim uma multiplicidade de relações que – se não me fazem melhor – instigam-me a ser melhor. Ao mesmo tempo, convivo com altos intelectuais do Brasil e do mundo e com catireiros, artesãs de “fuxico”, das flores de meia de seda... Num final de semana estou sentado a conversar com doutores da Unesp e da Usp, trocando figurinhas sobre leitura, literatura e livros e, às vezes, no mesmo final de semana, comprando galinha caipira e tomando um café gostoso com moradores da Água Limpa.
E assim, com diria Drummond, de tudo vai ficando um pouco. É desse substrato da vida que nossa alma vai sendo formada. Desse amálgama de vivências vamos sendo construídos diariamente. Sob as relações que mantemos com o outro – daí a opção em nossas relações ser também importante – é que vou construindo a mim mesmo e ao meu próximo.
Tenho dentro de mim cavalos e cavaleiros, bordadeiras, rendeiras, serralheiros, pedreiros... Habitam em mim mestres e doutores, escritores, poetas, pesquisadores... Passeiam por dentro de mim contadores de histórias, causistas, velhos e velhas com cafés passados no coador de pano e broas de milho assadas sobre o fogão à lenha... Há em mim análises aprofundadas sobre foco narrativo e percurso diegético, descritos com detalhamento tal que, acredito, é uma outra fantasia dentro da própria fantasia analisada... Convivem comigo fidalgos e plebeus, escargôs e ovo frito, Machado de Assis e Paulo Coelho...
Vivo permitindo-me viver. Estou aberto às muitas experiências da vida. Dela vou provando um prato aqui, trocando uma impressão acolá, observando, sentindo, procurando falar cada vez menos e ouvir cada vez mais... Assim, extraindo o que entendo de melhor para mim, mas também não relutando se mais adiante percebo que me equivoquei; lanço a ideia fora na hora. Essa coisa de ideia fixa, de apego demasiado ao que quer que seja, faz tempo que extirpei de mim.


Antonio Luceni é mestre em Letras, jornalista e escritor. Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE e acadêmico da Academia Araçatubense de Letras – AAL.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

QUAL É A SUA CANÇÃO?



Eu estava preparada para iniciar com vocês uma conversa sobre a música, suas técnicas e possibilidades, quando lembrei que domingo é o Dia das Mães. Puxa! Não poderia perder a chance de relatar a vocês, especialmente às mamães, uma experiência musical que aconteceu em nossa família quando eu estava grávida da Tayná, nossa primogênita.

Todas as noites, meu marido cantava para minha barriga a mesma “musiquinha”. É uma música muito cantada para as crianças, especialmente nas igrejas. A música compara uma menininha como uma florzinha que canta.

Bem, eu achava esquisito meu marido “cantar para minha barriga”; na minha ignorante concepção – embora meu bebê já nos ouvisse – não acreditava que ele poderia entender o que seu pai estava fazendo. Quando eu, constrangida com a cena o indagava, ele dizia sorrindo, para eu dar licença, pois estava cantando para sua filha. Era para mim, mesmo sendo a musicista da família, algo estranho cantar para uma barriga, mas eu tentava não interromper aquela serenata e as conversas que a seguiam. Embora me sentisse envergonhada com aquela situação, talvez por minha imaturidade, pouca idade, no auge dos meus 20 aninhos... sei lá.

Quando minha filha nasceu foi uma alegria só. Aí estava a nossa “florzinha”. Após uns seis meses, mais ou menos, um dia, a professora que cuidava das crianças na igreja que frequentávamos me perguntou se costumávamos cantar para a Tayná. Eu disse que não era o costume, mas curiosa perguntei o porquê. A professora, eufórica, me disse que em uma determinada música a Tayná ficava muito feliz, balançava os bracinhos e sorria muito, tentando acompanhar a dinâmica da sala enquanto as demais crianças a entoavam. Pois é, era exatamente a mesma música que meu marido todas as noites cantava para sua florzinha plantada em minha barriga. Relacionamentos... Reconhecimento... Identidade... Comunicação... Amor!

Muito mais que sons, que linhas melódicas, a música servindo de esteio para o estabelecimento emocional de um ser humano. A música como fio condutor de identificação, dizendo quem ele é, que ele é amado, bem-vindo, que tem “o seu” um lugar entre nós.

A música faz parte do nosso meio mais intensamente do que podemos compreender e detectar. Ela embala as mais ricas experiências e, realmente, serve de trilha sonora para histórias maravilhosas, sendo capaz de estabelecer laços, trazendo comunicação onde as palavras não conseguem fazê-lo. Está conosco desde antes do nosso nascimento com lembranças dos sons produzidos pelos órgãos de nossa mãe e pelos seus batimentos cardíacos. Mostram ao bebê que ele faz parte de algo, tem identidade, é pertencente geográfica e afetivamente a um povo.

A poetisa Africana Tolba Phanem retrata em seu texto “Nossa Própria Canção”, também conhecido como “Canção dos Homens”, um mito que diz sobre a importância de se dar as pessoas uma identidade, dar honra e amor desde a concepção. O respeito que há quando reconhecemos o outro como o único dono de sua história, de “Sua Canção”.

Todos nós temos a nossa música essencial; aquela que, ao ser tocada, faz com que as pessoas nos reconheçam nela, pois relata nossa essência. E você, reconhece no meio de tantos sons a sua música? A sua história, a sua essência?

Link para canção: http://www.youtube.com/watch?v=5D9ZOaOArj0

Neila Fontão é formada em Canto Lírico pelo Conservatório Dramático e Musical de Tatuí "Dr. Carlos de Campos". Pianista e regente do CantAta Coral e educadora musical do Projeto Guri.

domingo, 12 de maio de 2013

SIMPLESMENTE GASTRONOMIA



É comum associarmos a gastronomia à sofisticação, ao requinte, ao luxo; porém o conceito vai além desses estereótipos.  Gastronomia etimologicamente vem de gastro = estômago e nomia = leis e regras, mas não é somente isso. A cultura alimentar de um povo, a arte culinária com suas técnicas milenares transmitidas de geração a geração, as habilidades necessárias na confecção das receitas, os ingredientes específicos de cada parte do mundo, as combinações entre sabores, aromas, formas, cores e texturas fazem deste universo uma "galeria de arte" com diversificadas expressões artísticas e talentosas escolas de formação.
É neste rico contexto de informações que complementam o ato de se alimentar, não somente o de nutrir fisicamente que a cultura gastronômica se insere. Aqui neste espaço trataremos do assunto em pauta com simplicidade aproximando você leitor deste universo em sua essência principal, a de ser arte e de satisfazer o espírito.
Nesta relação que se estabelece com a arte, o comer (alimentar-se) e o prazer estão diretamente relacionados. Se desconsiderarmos apenas a função nutricional da refeição, só nos restaram as recordações da motivação essencial, afinal também comemos e bebemos como um ato social, reunir-se “senta-se à mesa" em caráter ritual cotidianamente “comer fora” ou “jantar em casa”, “almoço de domingo” com a família ou amigos, “jantar de negócios” para diferentes tratativas, ou para celebrar uma data especial (natal, páscoa, ano novo, aniversários, casamentos etc.), e por que não, mesmo desacompanhado, experimentar um prato típico ou exótico que sempre lhe apeteceu? O prazer de uma refeição está em associar o paladar e o aroma às sensações que sobrevêm de circunstâncias diversas, lugares especiais, fatos simbólicos, objetos inusitados e pessoas queridas.
Uma diferenciação necessária a fazer é a do cozinhar por necessidade. O trabalho doméstico das donas de casa, mães de família ou empregadas que todos os dias quebram a cabeça com o que fazer para o almoço ou jantar, e neste afã da criatividade, se perdem em meio às restritas opções que os hábitos alimentares comuns aos cidadãos de uma mesma etnia lhe impõem. Certamente mais prazeroso é executar uma receita da culinária clássica ou da cozinha internacional, para uma ocasião especial à seus pares, como demonstração de suas habilidades técnicas e alquimia dos temperos que personalizam sua produção e talento. Há algo em comum nestas duas situações, o ato de pensar o alimento! A primeira, mais restrita e concisa, dependente do que “tem para hoje”, em sua dispensa e geladeira, a segunda com infinitas possibilidades diante do vasto acervo gastronômico difundido pela cultura mundial.
O pensar o alimento vai além desta tônica. As receitas que encontramos nos livros, na internet, na TV ou no caderninho de receita das avós, não trazem todas as informações e detalhes de uma ficha técnica, está aí o grande desafio para os “pequenos e destemidos chefes”.  “Como cortar ou processar determinado ingrediente? Quanto tempo devo deixar isso no fogo ou para gelar? Mais duro ou mais mole? Como funciona este equipamento ou utensílio? Coloco isso ou aquilo primeiro?” Neste caso, a ordem dos fatores altera consideravelmente o produto final. É preciso pensar o que vai servir e o que acompanha, qual o horário e ocasião, ler a receita para organizar o plano de ataque (por onde começar), pesquisar detalhes daquela cultura original do prato definido para antes de mais nada dominar a técnica, seja ele doce ou salgado, quente ou frio, de cortar ou cremoso, tudo isso prevendo o impacto que causará aos comensais, é isto que nos traz um sentimento intrigante e desafiador no ato de cozinhar.
É neste sentido que afirmo “a gastronomia não está longe e inatingível”, pelo contrario, ao pensar o alimento estamos dedicando afetividade a ele, e este ingrediente não se encontra para poder comprar nem nos mais requintados empórios das grandes metrópoles. Está no coração, na alma, no sentimento, na vida... É bem simples, você pode combinar os mesmos insumos do dia a dia de diferentes maneiras e o resultado consequentemente será surpreendente. Mesmo em restaurantes que costumeiramente frequentamos quando nos alimentamos fora de casa, rapidamente no intervalo do trabalho, mesmo procurando padronizar sua produção diária, às vezes, notamos total diferença de paladar. Gosto da gastronomia por isso, não é ciência exata mesmo para a esfera comercial de A&B (alimentos e bebidas), onde empresários precisam equacionar e cuidar do seu produto e serviço com máxima atenção, pois a mão que “balança o berço”, que “conduz o fogão”, que “toca o piano” muitas vezes não é a que administra os negócios.
A gastronomia compreende um ato simples do pensar, idealizar e fazer, executar e assim satisfazer ao próximo e satisfazer a si mesmo com o resultado de sua produção. Motive-se a conhecer culturas alimentares, tendências do mercado, ingredientes exóticos, insumos orgânicos ou manufaturados, produções e dicas sobre este assunto que alimenta tanto o organismo como a alma.

Hélerson Balderramas é mestre em Turismo e Hotelaria. Professor universitário, entre outros, no curso de Nutrição do UniToledo.

sábado, 11 de maio de 2013

Sensibilidade: uma perspectiva interna da vida humana


Estive a reler poesias de Cecília Meireles e, mais ou menos pela décima vez, mergulhei no “Quarto motivo da rosa”, encontrado em seu livro “Mar Absoluto e outros Poemas”.


Tenho em mãos um volume da Editora Aguilar, impresso em 1987, no qual Darcy Damasceno faz comentários sobre a obra da referida Poeta. Devo confessar que a página 265 continua marcada pela fita de seda já se desintegrando, mostrando-me o quanto aquele poema afetou minha sensibilidade.

Segundo o comentarista, Cecília Meireles, do seu ponto de vista, achava a existência efêmera. O tempo era pintado por cores cinzentas e, para ela, ele era tão fugaz que se achava impossibilitada de reter os frutos dos instantes, o que gerava a nostalgia de muitos dos seus versos.

Confesso que reli o “Quarto Motivo da Rosa”, tentando encontrar outros ângulos de interpretação do texto que não fossem a fugacidade da vida, o consolo para quem encara a existência como efêmera e sem valor e tem dúvidas sobre o que vai deixar para a posteridade. E encontrei tudo isso em minha releitura.

E o que mais me sensibilizou neste poema? É que a Poeta dissecou a rosa do nosso jardim pessoal, sem tirar sua essência, seu perfume, seus espinhos. Deixa, nesses versos a missão de condutor dessa faina do existir, para o vento, que não deixa perder-se a vida, mesmo após a morte.

Neste ponto, devo revelar que encontrei a Cecília espiritualista. Por isso a empatia com essa autora de tantas obras belas.

A utilização da rosa no poema citado conduz as metáforas durante toda sua construção poética.
Essa flor tocou meu coração de mulher quando a autora desse belo texto (e de muitos outros belos textos) elaborou uma dança com as palavras certas, trançadas de maneira que o resultado fosse um chamamento para nossa sensibilidade. 

Para os que ainda não leram este poema, transcrevo-o, na esperança de que vocês busquem outros olhares para tão rico texto de Cecília Meireles.

Não te aflijas com a pétala que voa:

também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,

mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,

por desfolhar-me é que não tenho fim.

Marilurdes Campezi (Lula) é escritora, membro da União Brasileira de Escritores - UBE e acadêmica da Academia Araçatubense de Letras - AAL.                                                                           

sexta-feira, 10 de maio de 2013

SOBRE VITRUVIO, BRUNETE E ARQUITETURA



Volta e meia, talvez na falta de melhor assunto, ouvimos e lemos sobre arquitetura e urbanismo em velhos e cansados refrãos: “essa é a última tendência em arquitetura”. Desorientados, escutamos e piamente aprovamos o lugar-comum, que faz saia e blusa com outros bordões feitos do folclore local de ditos arquitetônicos descomprometidos, em afirmações pouco esclarecidas, mas incansavelmente repetidas. Essas e outras tantas frases servem de baliza para reprimir a reflexão e o debate, para prosseguir na repetição e empobrecer a discussão sobre arquitetura e urbanismo como arte, técnica, estética, ética, entre outros. Mas se arquitetura não é o que está “em alta”, o que é arquitetura?
De Architectura, de Marcos Vitruvio, é o mais antigo tratado de arquitetura que chegou aos nossos dias e serviu de base para a arquitetura clássica. Podemos considerar que foram os primeiros escritos que serviram como suporte para a reflexão, principalmente no que diz respeito aos métodos construtivos. Segundo o autor, os princípios conceituais da arquitetura deveriam ser "utilitas" (utilidade), "venustas" (beleza) e "firmitas" (solidez). Facilmente, poderíamos conversar sobre esses aspectos e analisar cada ato arquitetônico a partir de critérios pré-estabelecidos. Vitruvio falou de arquitetura enquanto falava de tectônica. Mas sabemos que, hoje, no bojo dessa “ciência-arte”, dimensões subjetivas estão intrincadas no debate e, consequentemente, falar de como se constrói não é suficiente para entender a arquitetura.
Na década de 1970, discutiu-se intensamente sobre o papel social do arquiteto. Esta não era uma discussão análoga à fala de Vitruvio. No decorrer do processo político de afirmação da cultura brasileira, muitos arquitetos escreveram e abordaram a arquitetura e a crítica a partir de perspectivas sociais, como é o caso de Lina Bo Bardi. Hoje em dia, para inteirar o discurso ético, temos o conceito de sustentabilidade pairando sobre os arquitetos. As manifestações da arquitetura sustentável no Brasil são cada vez mais numerosas, cada vez mais interessantes, cada vez mais pertinentes, mesmo que possam, muitas vezes, estar parcialmente equivocadas. Mas será que a arquitetura se restringe a discussões ideológicas, greenbuildings ou selos verdes?
Muitos reconhecem Niemeyer, outros tantos já ouviram falar, mas poucos realmente conhecem um dos grandes arquitetos do século XX. O que não dá pra negar é que cada um, advogando ou crucificando, diante de uma obra do velhinho comunista, tem uma opinião para oferecer. Um edifício que emociona. Pode ser isso arquitetura? Há quem fale de arquitetura como fala de roupa, cabelo ou sapato. Há também quem fale sobre cortinas, almofadas, tapetes, porta-retratos e cadeiras. Não que eu acredite que a moda ou o design de interiores sejam artes menores, mas em tempos de arquitetas ricas, “embotoxicadas” e com reflexões projetuais da profundidade de um pires, a discussão sobre arquitetura beira a futilidade.
Como pode, então, algo ser colateralmente arte e ciência, emoção e razão, funcionalismo e forma? E afinal, os arquitetos e urbanistas, o que fazem? Entre as tendências e o eterno, planejam cidades, desenham casas, plantam jardins, pensam em estruturas, batem lajes, pintam quadros e combinam almofadas? Como entender esse caráter tão multifacetado para não dizer, paradoxal? E pior, como escrever sobre a obra de “embotoxicadas” e Vitruvios? Dentre tantas questões, uma parece fazer mais sentido: qual a real e pura identidade da arquitetura?     
Do alto da minha pouca experiência, posso dizer que ainda não sei. Por enquanto, a gente pode discutir sobre o que aprendi, conhecer alguns arquitetos, se emocionar com algumas obras, aprender sobre a história e teoria da arquitetura e, quem sabe, se arriscar em algumas críticas num tom mais filosófico. Quem sabe não encontramos pistas sobre essa prática? Mas não crie demasiadas expectativas, já que, em muitos casos, ela beira a mediocridade, como consequência de sua inata condição de efemeridade e circunstância. Neste caso, com uma primeira pista, podemos descartar de imediato tais arquiteturas: não por ser arquitetura ruim, mas por não chegar a sê-lo.

Márcio Barbosa Fontão, graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

ARTE E VIDA



Que alegria estar aqui com vocês. Que alegria ter este espaço para, juntos, trocarmos opiniões, impressões e ideias sobre este que é, sem dúvida alguma, um campo privilegiado do conhecimento humano: as artes visuais.
“A escrita é filha do desenho”. Antes mesmo de nossos ancestrais se comunicarem por meio da palavra, eles já faziam uso da expressão plástica. Desenhos, pinturas e esculturas primitivas são das mais interessantes e, até hoje, objeto de estudo de antropólogos, filólogos, artistas plásticos, historiadores etc... Tudo isso porque a arte é uma linguagem de extrema importância para vida humana.
Esse desejo de nos expressarmos plasticamente nos acompanha – e sempre nos acompanhará – até os dias de hoje. O desenho e a pintura são umas das primeiras linguagens que a criança adota para se comunicar. E o quanto gostam de sair colorindo papéis, paredes, sofás, sapatos, camisetas... não é mesmo?!
A imagem é mágica, seduz, aproxima, encanta, emociona, incomoda, estimula, alegra, dialoga com todas as idades... Quantas cores e cenas estão presas à nossa mente e, como um filme, costuram momentos de nossas vidas, ilustram-nas de forma particular.
O intuito deste espaço é favorecer mais um momento de contato entre você e artistas plásticos e parte de sua produção. Com isso, a ideia é que todos nós aumentemos nosso repertório visual e, a partir dele, passemos a ver o mundo com outros olhos, talvez mais harmônicos e inventivos.
Começaremos com uma série de artistas araçatubenses, depois partiremos para conhecer um pouco dos artistas da região. Em seguida, alguns artistas de expressão no cenário paulista e, nesse movimento, partiremos para alguns artistas nacionais e internacionais.
Logo abaixo, um pouco de meu perfil e trabalhos, já para dar o exemplo!
O desejo é que você interaja semanalmente com este espaço e, quem sabe, saia dele um pouquinho melhor, com mais uma página da vida colorida nesse grande e maravilhoso livro que é nossa história de vida!

Duxtei Vinhas Ítavo é professora aposentada, artista plástica, atriz e escritora – membro da União Brasileira de Escritores – UBE e da Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP, em São Paulo, mas é mais conhecida na cidade pelo trabalho que desenvolve como artista plástica e contação de histórias.

Algumas Obras:

Tropeiros com boiada

Baianas e lavagem das escadarias



quarta-feira, 8 de maio de 2013

EM CARTAZ... "O CINEMA"



Você se lembra qual a primeira vez em que foi ao cinema? Se não lembrar não se assuste; a maioria das pessoas não se lembra. A lembrança que tenho da primeira vez que fui ao cinema, me encanta. A tela era enorme (representava ser bem maior do que era), um som altíssimo, o ambiente escuro totalmente avesso a qualquer outro, os amigos que me acompanhavam e, claro, a pipoca. Foi assim que fui apresentada à Sétima Arte, acompanhada do sentimento de ansiedade pelo que iria ver. O fato é que o cinema é um veículo que comunica, transforma a mentalidade, provoca o pensamento, instiga e, ao mesmo tempo, registra nosso imaginário...
Em uma época em que pensou trocar a telona pela confortável sala de tevê, a livre escolha do filme, modernos equipamentos, a pipoca (lógico que é a de micro-ondas) e com o direito a paradinha pro banheiro, as telonas voltam com tudo. Voltam porque não há como substituir a magia que existe no cinema. A arte transcende a matéria e a toda e qualquer forma de comodidade caseira.
O cinema, que foi criado pelo homem com estilo próprio, produz alimento para o conhecimento com informação, arte, socialização e diversão acima de tudo. Isso mesmo, cinema é lazer! É uma fonte inesgotável de cultura, também.  A cultura é dinâmica, sofre mudanças e, nesse contexto, o cinema provoca a descoberta, a inovação e permite a ampliação cultural do homem.  O cinema que comunica tem sua estética, gêneros e formatos, por isso ficou conhecido como a indústria da Sétima Arte. E bota arte nisso! Os filmes, de modo geral, causam emoções diversas e permitem a viagem que assim quisermos. Podemos viajar nos romances apresentados, nas superações propostas pelos dramas, nas alegrias e gargalhadas da leveza das comédias, no desespero que sentimos nos filmes de suspense, sem contar na sensação incrível ao assistir as explosões e sair sem nenhum arranhão dos filmes de ação. O medo que sentimos, só nos filmes de terror, que passa rapidinho quando o filme acaba. Esse é o processo da prática do cinema, as múltiplas sensações e sentimentos causados quando nos entregamos ao filme, ao momento único e transformador que uma sessão de cinema pode causar. Pratique cinema e veja o resultado!
Os filmes considerados “antigos” tinham suas propostas inovadoras e hoje nos remetem ao saudosismo. Clássicos fantásticos como “E o Vento Levou...” – a história que narra a trajetória de uma linhagem familiar –, transitam pelos ciclos da vida e nos passam mensagens diversas. E uma curiosidade: foi o primeiro filme em cores a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Cogita-se ainda que, se fosse reprisado nos cinemas, arrastaria multidões, a exemplo das grandes produções como Avatar, filme produzido com a mais alta tecnologia.
Os filmes causam muitas sensações e daria pra ficar horas relatando o que se pode viver ao assistir um filme, mas nada supera o bem estar danado que sentimos com os finais felizes, antes próprios do público infantil e que, hoje, caiu no gosto de todas as idades com as super produções dos clássicos, fabulas e a comédia romântica (novo gênero) que nos faz ir às alturas, voar nos sonhos e isso é bom demais, não é?

Em relação aos gêneros, atualmente são inúmeros. A proposta é agradar ao máximo o público e percebemos esse cuidado com as superproduções, que se superam a cada filme. Na indústria do entretenimento, tudo vale para atrair cinéfilos e o público estreante. Para essa nova geração, as atrações chegam às telonas com adaptações de contos infantis, releituras e cinebiografias musicais. No Brasil, o lançamento da semana fica por conta de uma cinebiografia.
Bem-vindo a essa turma de apaixonados por cinema. A proposta é que se motive a frequentar cinema, faça suas escolhas, entregue-se ao momento e colha os frutos dessa nova relação, pois a moda agora é Cinemar... Vamos lá e até a próxima.

Dicas cinebiografias musicais:

O que ta rolando

Somos tão jovens (2013) – o longa conta a história de Renato Russo, ícone do rock brasileiro, mostra o inicio da carreira até a banda Legião Urbana. Thiago Mendonça interpreta Renato.

O que já rolou

Johnny & June (2005) – conta a história de Johnny Cash e seu relacionamento com June Carter, também cantora e que o salvou da autodrestruição. No elenco Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon. Ela Recebeu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.


Valéria Oliveira é mestre em comunicação é mídias.

terça-feira, 7 de maio de 2013

COLCHA RALA



Numa Terra quente, num lugar distante.
Os rodamoinhos varrem o solo enchendo as faces de poeira. Enchendo as casas de poeira. Enchendo as vidas de poeira.
Quando vem a chuva, poeira se une a ela e gera lama. Lama que enche a casa de barro. Que suja as roupas de barro. Que enche a vida de barro.
Sem chuva, o vento, o frio.
Antes mesmo que o sol traga a manhã, o vento invade a casa, por entre frestas de portas e janelas, por entre os vãos de telhas desencontradas, de múltiplas formas da olaria. Invade sem avisar ou pedir licença e acorda os que nela habitam, em seus leitos pobres com seus quase cobertores.
O menino se contorce mais um pouco, comprimindo-se tal qual feto em útero à espera de nascer. O frio é forte. A colcha é fraca. A noite é curta. O dia é longo.
Ainda sob a treva matinal sai o menino para o trabalho, com tantos outros meninos. Facão e bornal nas costas, marmita de ingredientes mínimos, os olhos ainda remelentos, a coragem somente esperança.
As roupas ralas não impedem de o vento frio cortar-lhe o corpo. Com a face anestesiada, procura perceber o nariz; a boca cortada, com fissuras ainda doendo, sangram esporadicamente na ausência de hidratação.
Uma roça de cana o espera. Ao longo do percurso fantasia uma vida melhor, com, ao menos, o que comer direito. Como lutador que é, alimenta a esperança de um dia poder dormir num quarto fechado, num cobertor que o cubra por completo, que o vento frio não o castigue tanto e o deixe dormir nas poucas horas de que dispõe para isso.
Enfileiradas, as touceiras de cana se apresentam como soldados infindos de uma batalha diária que precisa ser vencida. Um a um são derrubados. Um a um são mutilados, cortados, lançados para o lado; agressores inimigos.
Vez ou outra uma cascavel surge no meio do caminho e faz com que o menino desperte do sono que ainda o acomete. O frio, àquela altura quase finito, ainda o acompanha forte, sobretudo na mão pelada e dormente, que segura o facão.
A urgência é que o sol fique um pouco mais forte com a aproximação do almoço e o abrace, pondo fim ao martírio. O ovo frito, o arroz brilhante, o feijão ralo não são os protagonistas na parada para o descanso do meio dia. O corpo está aquecido, seus membros sentidos por inteiro. A blusa rala já até incomoda um pouco e não absorve todo suor que lhe envolve o corpo.
Pelo menos, o frio já foi.

Antonio Luceni é mestre em Letras, jornalista e escritor. Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE e membro da Academia Araçatubense de Letras – AAL.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DOSES DE MÚSICA




Não me lembro desde quando são minhas imagens musicais. Sei que todas as cidades onde morei, todas as amizades que tive e todos os momentos da minha história até aqui trazem lembranças de um som, uma melodia. Memórias que outrora deixaram saudade, agora estampam um sorriso em meu rosto sem ao menos que eu perceba. Enquanto a música toca, também traz lágrimas aos olhos durante a recordação.

O que significa a música pra você? Você pode relatar sua história com alguma “trilha sonora”?

Bem, vamos lá ao que teoricamente aprendi. Aprendi que a música é a organização dos sons de forma agradável e coerente ao ouvido. Com o passar dos anos, notei que tal definição estava equivocada, ou pelo menos se referia ao ouvido específico de algumas pessoas; não necessariamente todas achariam a mesma organização musical agradável.  O que é agradável para mim não é, necessariamente, agradável para o outro e vice-versa. Constatei, também, por meio de inúmeras experiências, que nem sempre a trilha sonora de minha vida embalava algo doce e agradável do meu dia. Enfim, a música nos rodeia até mesmo quando não a desejamos ouvir. Em tudo há trilha sonora. Nossas atividades diárias estão permeadas por música.

Essa forma de arte é uma prática muito antiga, servindo para funções diferentes, em épocas diferentes, em povos diferentes, mas sempre sendo o fundo musical para diversas atividades diárias dentro das sociedades mais antigas até os dias de hoje. Há música para anúncios, para caçada, para enterros, para romance, para guerra, para ninar um filho... Na História da Música vemos a evolução tanto na Música Vocal quanto na Música Instrumental. A história nos revela que a música é outra forma de linguagem, outra forma de comunicação e expressão humanas. Mas a que fim ela se destina, já que nos dias de hoje temos tantos outros meios de comunicação?

Você já tentou imaginar um filme, uma cena sem a trilha sonora? Tente fazê-lo. Assista à cena de um filme de sua preferência com o som e depois o abaixe totalmente e observe o impacto da cena sobre você nas duas situações. Talvez sem perceber, vai acontecer de você ouvir em sua mente, como “uma sombra”, a trilha sonora mesmo com a cena do filme sem volume algum. Por quê? É porque a música é algo que está inserido em nosso próprio corpo, sem que ao menos a percebamos! O funcionamento de nossos órgãos, o batimento de nosso coração, o esbarrar de nossa respiração sobre uma superfície produz som e esse som é feito de alturas musicais (notas); sons mais graves, mais agudos, em tempos regulares ou não... Isso é música!

Certa vez, lendo um comentário sobre Charles Darwin e sua pesquisa, algo me chamou a atenção. Darwin diz que a música determina a escolha de parceiros sexuais, assunto de pesquisa até hoje. De forma prática, sabemos dessa afirmação, pois todos temos na lembrança músicas que nos remetem a pessoas e a situações que passaram por nossa história. Às vezes, andando pela rua ou num supermercado, sem necessariamente ser um ambiente propício ao romantismo, ouvimos uma música e imediatamente a imagem de uma pessoa, de uma cena, de uma época nos vem à mente, tendo o poder de fazer surgir em nós os sentimentos mais variados: tristeza, saudade, alegria, dor... A música tem sido um fator relevante dentro da sociedade para as expressões relacionais entre seres humanos.

A música tem esse poder de arrancar de dentro de nós, de maneira inesperada, sentimentos que achávamos desaparecidos. Ela consegue nos fazer relaxados, agitados, reflexivos, admirados, nos traz lágrimas aos olhos, bota um sorriso no rosto da mesma forma, como um belo texto ou bela tela.

Há uma frase de um importante dramaturgo russo chamado Anton Pavlovich Tchekhov que diz: “O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas”. Assim, a música tem o poder de abrir em nós a alegria e deleite também proporcionado por um bom vinho.

Aceita mais uma taça de música? Saúde e tim! tim!
Seja bem-vindo!

Neila Fontão é Formada em Canto Lírico pelo Conservatório Dramático e Musical de Tatuí "Dr. Carlos de Campos". Pianista e regente do CantAta Coral e educadora musical do Projeto Guri.

quarta-feira, 1 de maio de 2013



Blog de caras novas



No dizer de Octavio Paz – poeta, ensaísta e Nobel de literatura – “o homem inventou a linguagem e, ao inventá-la, inventou-se”. Isto porque nós, bichos racionais, só nos damos conta de nós mesmos e do que significamos para e diante do mundo por meio da linguagem.
Da linguagem ou das linguagens? Acho melhor a segunda alternativa.

Se no começo de tudo, nós, humanos, dispúnhamos de meia dúzia de linguagens para nos comunicar (grunhidos primários, desenhos rústicos, gestos toscos...) hoje, temos um infinito de possibilidades por tantos meios que, ao mesmo tempo que mantêm uma identidade particular – rádio, televisão, cinema, livros, telégrafos, fax, internet, celulares... – também dialogam entre si, formando arranjos múltiplos de comunicação. Não por acaso, vemos propagandas em revistas, jornais, televisão, cinema e rádio, por exemplo, encaminhando leitores, ouvintes e telespectadores para sítios ou blogs de determinadas empresas e produtos.

São os “gritos de galos” a que João Cabral de Melo Neto se refere em seu famoso poema “Tecendo a manhã”. E, também como preconiza ele, a manhã é feita de muitos cantos de galo, já que um só não dá conta de produzir algo tão importante, colossal e urgente quanto o é a manhã.
Sou um comunicador desde sempre. Aquilo que para minhas professoras primárias era motivo de queixas nas reuniões de pais e mestres, tornou-se meu instrumento de trabalho: a comunicação. Na carreira que escolhi para exercer, nas atuações como artista plástico, jornalista e escritor e, agora, como estudante de arquitetura. Preciso me comunicar com todos, e da melhor maneira possível.

Assim, em 2007 decidi ampliar este universo de comunicação e criei um blog. Nele, passei a dividir com leitores, amigos e alunos de textos, reflexões e projetos ligados à cultura, educação, arte, literatura, que fazem parte de meu universo cotidiano. Mas é preciso mais. É preciso navegar mais, descobrir novos horizontes, atrair novos leitores.

Daí, a partir deste mês blog do Antonio Luceni ganha novo fôlego, com colaboradores diários que irão tratar, cada qual em sua especialidade, sobre cultura, música, gastronomia, cinema, literatura, artes visuais e arquitetura.

Esperamos que, com esse diálogo mais próximo e diário tenhamos novos perseguidores em nosso blog e que, com as postagens realizadas nele, possamos modestamente contribuir para esse caldo de cultura tão importante, necessário e urgente para a sociedade almejada por todos nós, a saber, livre de violência, mais justa, mais inteligente, mais humana.

E, se Octavio Paz estiver mesmo certo, que, por meio das boas linguagens presentes nas muitas expressões da cultura e da arte, reinventemos um homem e uma sociedade melhores.

Acompanhem, deliciem-se com os textos, interajam com seus produdores e sejam todos bem-vindos a esta nova fase do blog. E não perca tempo: acesse-o agora mesmo! (www.antonioluceni.blogspot.com).

Antonio Luceni é mestre em Letras, jornalista e escritor. Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE e membro da Academia Araçatubense de Letras – AAL.