segunda-feira, 14 de maio de 2012

FORMAÇÃO COM ESTAGIÁRIOS

A manhã de hoje foi bastante movimentada na EMEB (Escola Municipal de Educação Básica) Francisca de Arruda Fernandes, com orientações em Arte-educação para os estagiários da Secretaria Municipal de Educação, Araçatuba/SP.

Tema da aula: Retrato
Público Alvo: estudantes de Pedagogia e Educação Física
Ministrante: Prof. Antonio Luceni

Objetivos:
* Discutir sobre a dinamização das oficinas pedagógicas do Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba;
* Identificar algumas das possibilidades do trabalho com o ensino e aprendizagem do componente curricular Arte;
* Propiciar o diálogo entre teoria e prática de modo a favorecer um bom resultado profissional junto aos alunos;
* Produzir livremente, fugindo da forma estereotipada e pré-concebida;
* Distinguir retrato x fotografia

Procedimentos:

1º Momento: sondagem inicial e conhecimentos prévios
2º Momento: apresentação de retrato e autorretratos produzidos por artistas famosos em todo o mundo, nas mais diferentes épocas e com os mais diferentes estilos e técnicas;
3º Momento: produção de retratos e autorretratos a partir de técnicas como pintura, escultura, fotografia, colagem, entre outros.
4º Momento: apresentação dos trabalhos e partilha de experiências entre os grupos.
5º Momento: avaliação do encontro por parte dos participantes.

Recursos materiais utilizados: cartazes com reprodução de obras, cartolinas, papel cartão, tesouras, colas, barbantes, câmera fotográfica, fitas adesivas, pincéis, tintas, revistas e jornais usados, entre outros.

Imagens da oficina:















domingo, 13 de maio de 2012

Pra que facilitar?


Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

- O senhor pega esta fila e pede pra que batam o carimbo na via branca, assinem nesse espaço na via azul, repete a assinatura nas vias rosa e verde, depois volta aqui.
- Pronto.
- Agora o senhor preenche este formulário, com estas cinquenta perguntinhas aqui e depois traz pra mim ver.
- Pronto.
- Agora o senhor leva isso tudo aqui no cartório e aí pede pra eles autenticarem tudo, reconheça firma e depois volte aqui.
- Pronto.
- Agora o senhor leva isso tudo na prefeitura e pede pra eles vistarem e depois traz aqui.
- Pronto.
- Agora o senhor pode aguardar que quando tudo estiver “ok” a gente entra em contato com o senhor.
Já parou para pensar no quanto a gente fica perdendo tempo com tanto papel? Já parou para pensar que a vida poderia ser mais simples, as coisas poderiam funcionar eletronicamente, as anotações deveriam acontecer somente se fossem imprescindíveis, a quantidade de volumes de provas, semanários, cadernetas, papeletas, FIAP’s, portifólios poderiam ser bem menores?
O mundo de hoje é muito dinâmico pra gente ficar parado frente a tantos papéis. As traças e as baratas já estão alimentadas o suficiente e seus estoques de gordura são suficientes para as próximas décadas.
Ao invés de a gente ficar preenchendo tanto papel – que no final não serve pra muita coisa a não ser encher arquivos mortos, prateleiras mofadas e gavetões de armários que são verdadeiros elefantes brancos nas repartições públicas – deveríamos canalizar a maior parte de nossa energia lendo um bom livro, recebendo ou dando orientações técnicas e profissionais, bem mais úteis para o nosso dia a dia.
A bu(r)rocracia engessa. A bu(r)rocracia cristaliza. A bu(r)rocracia é burra.
Falam tanto em preservação do meio ambiente, pedem tanto pra gente poupar isso e aquilo, arrancam de nós as sacolas plásticas, fazem a gente fazer xixi no piso do banho – e é lógico que algumas dessas atitudes são válidas, mas também questionáveis – e não trocam hábitos que são igualmente – e em alguns casos mais – graves que os descritos antes.
Abaixo a bu(r)rocracia. Abaixo tudo aquilo que faz a gente perder nosso precioso tempo. Abaixo tudo aquilo que é menos que pensar, que exercitar o cérebro, que aprofundar conceitos, que agrida o meio ambiente!

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

domingo, 6 de maio de 2012

Estou farto

Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

Dias atrás estava pensando sobre algumas cobranças ou questionamentos que muitas pessoas fazem, mas da boca pra fora. Por exemplo, ouço muito gente falar que não gosta de falsidade, que detesta pessoas mentirosas e que prefere a verdade. Aí, quando você é sincero ou diz o que tem que dizer, é censurado. “Ah, mas você é um grosso... Onde já se viu falar isso?”; “Você poderia dizer isso, mas não do modo como disse. Assim você acaba machucando as pessoas...”.
Também fico vendo gente fazer campanha contra corrupção, apadrinhamento, nepotismo, aumento de salário dessa ou daquela categoria, entre tantas outras coisas que, é verdade, precisam ser questionadas e, em alguns casos, repugnadas e extirpadas de nosso meio, mas a primeira oportunidade que tem usa logo do jeitinho brasileiro: “Ah, mas são só cinco minutinhos... deixa eu entrar, vai... a prova nem começou ainda”; “Eu sei que o trabalho era para ser entregue na aula passada, mas é que eu tive que viajar e aí não deu pra entregar... quebra esse galho, vai?”; “É rapidinho, não vou demorar nada... se algum deficiente físico chegar você me avisa que eu saio”, entre tantas outras formas de corrupção, falta de ética e respeito para com o próximo que está no mesmo nível daqueles para os quais aponta o dedo.
Há um modelo de ser humano almejado por muitos que beira o endeusamento. Há um tipo de ser humano que vivem buscando nos outros (sempre nos outros) que faria desse nosso planeta, sem dúvida alguma, o melhor lugar do mundo para se morar, plantar árvores, escrever livros, ter e criar filhos. Mas como disse, isso só serve para os outros. Se eu tiver que praticar o que digo, respeitar as cobranças que faço, logo arrumo um jeito de abrir exceções, minimizar as críticas, diminuir a acidez das palavras.
Cada dia mais estou saturado de pessoas que só sabem cobrar, se queixar, encontrar defeito em tudo, mas que não têm coragem de encarar seus próprios erros, assumir que também são humanas, que precisam aprender com os outros, ser mais solidárias com os deslizes alheios.
A vida toda escutei queixumes das pessoas. Não poucas vezes – isso desde o primário – colegas meus de sala chegavam todos inflamados, senhores da razão, mártires de revolução, querendo mudar o mundo, bater de frente com quem sei lá que fosse, pedindo meu apoio e colaboração, mas na hora “h” pulavam fora e deixavam o bestão aqui sendo o vilão da história. Perdi a conta das vezes em que peitei patrão ou chefe na tentativa de pleitear este ou aquele benefício para categoria, mas no “estalar dos ovos” meus pares diminuíam o tom da voz, baixavam a guarda e, para o primeiro “basta” do algoz, se emudeciam e se submetiam novamente aos desmandos e à burrice das ordens.
Estou farto dos frouxos, dos medrosos, dos conformados com o mundo. Estou farto dos revolucionários de facebook, de abaixo assinados, de assembleias e conselhos, de sindicatos e associações. Estou farto das pessoas que se acomodam com a desgraça a que são submetidas diariamente e que baixam a cabeça para os abutres de plantão.
Estou em busca de gente que honre o que diz, que sofra as consequências de suas ações, mas que não busque subterfúgios ou “jeitinhos” quaisquer para se livrar da palmatória. Estou querendo estar ao lado dos que sabem dizer “não” quando têm que dizer “não” e dos que, haja o que houve, doa a quem doer, estejam certos de suas convicções.
Quem vem comigo?

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

terça-feira, 1 de maio de 2012

DIA DO TRABALHO?

Dia de trabalho?
Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

“E, havendo Deus terminado no sétimo dia a sua obra, que fizera, descansou nesse dia...” – Gênesis 2.2a

Eu e meus irmãos começamos a trabalhar desde muito cedo. Com meus pais também foi assim. Não ouvi história diferente sobre meus avós. É verdade que, se tivéssemos opção, isso seria protelado. É muito difícil ter que, ainda criança ou adolescente, levar nas costas o peso da responsabilidade de uma casa: comida, vestimenta, água, luz, produtos de higiene e limpeza e, ainda por cima, sobrar algum tempo para diversão, estudo etc...
Meus avós – e sempre me refiro aos maternos porque foi com quem sempre tivemos mais contato – ajudavam seus pais na roça, colhendo algodão, tomate, quiabo, milho..., ajudando a carpir e a retirar matos das plantações, arrancando tocos ou espinhos do meio do caminho, erguendo taperas para se recolherem à noite, passando maus e difíceis bocados para conseguir o básico e continuar com a morte e vida severina que lhes eram imposta.
Minha mãe, filha mais velha de uma prole de dez, acabou assumindo o lugar de dona de casa, isso já com dez, doze anos. Lavava, passava, cozinhava, arrumava a casa, cuidava dos irmãos mais novos, servia aos pais. Até hoje, alguns de meus tios pedem “benção” pra ela quando chegam à casa dela.
O Lúcio – coitadinho de meu irmão – carregava enormes latas d’água de uma distância horrível até em casa, sobre os ombros ou na cabeça, para abastecer potes de barro que serviam como reserva para matar a sede, lavar louças, fazer comida e tudo o mais. E ele só tinha seis ou sete anos nesta época, no interior do Ceará.
O Lindomar e o Lucivan também passaram por um caminho parecido. Menos duro que nosso irmão mais velho, pelo que sabemos e imaginamos, mas igualmente cruel. Roças de tomate, canaviais com cascavéis, escorpiões, foligens e esse sol quente de nossa região que não perdoa ninguém. Tudo isso saindo de madrugada, com uma marmita tão precária que, muitas vezes, se tinha que buscar uma abobrinha, um tomate, maxixe ou coisa do gênero para completar a refeição.
Eu e a Lindalva não sofremos tantas agruras como as descritas. Ela porque era a única menina da casa; eu porque nunca tive tanta vocação para este lado mais pesado do trabalho, nunca tive muita saúde pra enfrentar sol, chuva ou frio. Mas comecei cedo também. Frequentei a Fundação Mirim, depois o CEFAM e por aí iniciei minha carreira profissional que, como a vocação mostrava, restringiu-se até os dias de hoje ao Magistério.
Neste dia do trabalho recordamos, não com tanta alegria, é verdade, sobre o percurso pelo qual passamos para conseguir o pão e viver honestamente nesta terra, apesar de continuarem a querer nosso sangue, pele e ossos com tantos impostos, juros e roubalheiras mais fiscais.
Mas se até Deus descansou após um longo trabalho, por que nós não estaríamos fazendo o que de melhor se deve fazer depois de tanto trabalhar? Descansar.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

CRITICIDADE


Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

Sob a cidade estão enterrados os mortos com suas virtudes e pecados, com seus últimos desejos e ainda suas últimas palavras presas à boca. Sob a cidade há alguns pés de alface, algumas batatas e cenouras, algumas raízes de alecrim e manjericão. Enterrados no chão da cidade estão alguns brinquedos, alguns ossos de frango ou de gado, algumas meias velhas...
No chão da cidade há de tudo um pouco. Como adubos imperfeitos estão cacos de vidro, cerâmica de bloco e restos de concreto. Há organismos vivos que, como proletariados, fazem um trabalho repetitivo e ingrato. Higienizam o solo e criam certo dinamismo mudo, que não serve de marketing para ninguém.
Há também, sob o solo das cidades, uma rede imensa de esgotos, para onde os dejetos de todos nós vão diariamente, a cada minuto, criando um ciclo de podridão sem fim. Sabe aquela cuspida que você deu hoje pela manhã em sua pia, após escovar os dentes? Está no esgoto da cidade, agora. Sabe aquela escarrada, com um pouco de catarro e um pouco de sangue? Está no esgoto da cidade, agora. As fezes que lhe inchavam a barriga na manhã de hoje estão pelos esgotos da cidade, agora. A sobra de óleo, alguns poucos grãos de arroz ou de feijão, o creme do macarrão que restou na colher, o resto de coca que ficou na garrafa... todos eles estão no esgoto da cidade, agora.
Os esgotos da cidade não são visitados. Ninguém para o carro no acostamento ou se programa durante o dia ou a semana para visitar os esgotos da cidade. Ninguém está nem aí para saber como andam os esgotos das cidades. Mas todos, indiscriminadamente, fazem uso dos esgotos das cidades. Todos nós produzimos desejos e usamos os esgotos da cidade.
Certo dia um desses esgotos me chamou a atenção e me fez ver o quanto ele estava cheio de tudo isso. Sob forma de protesto – não dá para imaginar diferente – despejou um líquido marrom-esverdeado e, sem perceber, passei por entre ele. Reclamei, xinguei, lavei o máximo que pude, mas parecia que ele não queria se descolar de mim. Ficou o dia todo a me lembrar que ele estava por ali, que talvez já fizesse parte da composição química do meu corpo. (Talvez ele já fizesse parte de mim há tempo, mas somente agora pude pensar sobre estas coisas, sobre nossa relação mais orgânica).
Quase sempre não queremos encarar os esgotos da cidade. Precisamos deles, fazemos uso deles diariamente, mas optamos por uma relação velada, quase niilista. Optamos pela cidade de cima, com as ruas cobertas pela manta negra, pelos jardins floridos e gramas bem aparadas, pelas calçadas e seus ladrilhos. As coisas embaixo do tapete não nos ferem a vista.
Mas a podridão da cidade corre em seu interior para todos os lados. No interior da cidade não há classes sociais, nem metro quadrado mais caro. Todos os cantos da cidade são visitados por esgotos que, como veia, fazem a podridão circular equitativamente. Em todos os cantos da cidade, neste momento, há alguém dando uma descarga, jogando um balde de água suja num tanque qualquer, lavando uma calçada ou despejando a água de sangue do frango que acabou de se descongelar.
Por todos os cantos da cidade há das mais diversas situações de sujeira e, em todas elas, os esgotos é que fazem a recepção.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sobre o sabor do saber

Antonio Luceni

 
Que a escola vive uma crise sem precedentes, não há como negar; falar sobre isso é “chover no molhado”. Que devemos buscar modelos para diminuir o desgosto de se ensinar e aprender, também, é algo do senso comum. Que a escola que nossos pais – e que nós mesmos – frequentavam já é coisa do passado, é ponto passivo.

Então, qual modelo adotar? O que devemos fazer para que nossos filhos e alunos sintam no ato de ir e frequentar a escola o gosto pelo sabor do saber? As respostas não são fáceis, mas também não residem em “outro mundo”.

É comum ouvirmos de crianças, adolescentes e jovens o “eu não gosto de ir para escola”. Já ouvi depoimentos de pais que dizem que seus filhos de quatro ou cinco anos têm verdadeira aversão quando é chegada a “hora do colégio”.

É claro que aprendemos com o mundo. É claro que a escola não é o lugar, ou ao menos o único, em que o aprendizado se dá de forma sistematizada em nossas vidas; sobretudo na atual sociedade com a internet, com tantos cursos a distância, com tantos e-books, celulares conectados ao mundo, com tanta troca de informações entre as pessoas.

Aquela escola, lembra?, detentora de todas as informações e conhecimentos, onde o professor era seu principal guardião e que, arbitrariamente, repassava estes saberes em doses homeopáticas, já não convence mais. (Não poucas vezes escutei que “este assunto não é dessa série” de minhas professoras primárias, só porque fazia umas perguntinhas um pouco mais desafiadoras “para série”).

Pois é, “aquela escola” já não nos pertence mais. As coisas mudam, os tempos mudam, as pessoas mudam. Uma criança que nasce numa época como a que estamos vivendo, com tantas parafernálias tecnológicas, com um caldeirão de informações à sua volta não vai querer ficar à espera do “gotejamento do saber” que a escola insiste em passar. Uma criança que já nasce quase falando – você já parou para observar o quanto nossos bebês estão cada dia mais espertos? – não vai querer se submeter a ficar quatro ou cinco horas sentada numa cadeira e mesa desconfortáveis, olhando para nuca do colega, enquanto o mundo lá fora gira, propõe uma série de questões interessantes, muda de paisagem com suas cores, ventos, formas e cheiros...

Há várias escolas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo que podem servir de modelo para que a escola retome a condição do saber com sabor. Esses modelos são grandemente difundidos pela mídia internacional e constantemente objetos de matérias em revistas especializadas em educação, participação em congressos e seminários da área, além de terem suas portas abertas para visitas de pesquisadores do mundo todo. Só a título de exemplo, podemos citar os casos de Reggio Emília, na Itália, a Escola da Ponte, de José Pacheco, em Portugal, ou mesmo, Escola da Vila, em São Paulo, entre outros.

O que falta, então, a meu ver, é vontade política do Estado brasileiro e da sociedade de modo geral (educadores, pais, alunos etc.) para implantar em nosso sistema educacional formas que propiciem uma educação significativa e com sabor.

Ou será que é o “angu sem sal nem açúcar” a comida que querem oferecer, deliberadamente?

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Feliz páscoa


Por Deise Machado

 
Páscoa é também o renascimento de muita coisa importante: além do nascimento do nosso Salvador, é tempo de mudar, agir, repensar, e, sobretudo olhar para dentro de nós mesmos, analisando o EU e deixando de lado antigas amarras, decepções e infortúnios.

Sem atentar especificamente para a questão religiosa, é necessário rever nossas posturas, repensar algo que fazemos errado e sabemos que fazemos errado e tentar modificar tais ações, revertendo sempre para o bem ao próximo e consequentemente a nós mesmos.

Páscoa significa passagem. Passar da nossa zona de conforto para chacoalhar e transformar nossa vida, por vezes individualista, egocêntrica, tentando fazer um paralelo entre o que falamos (nosso discurso), e o que de fato realizamos (nossos atos).

Nessa Páscoa vou sim saborear os deliciosos e engordativos ovos de chocolate.....mas vou também, por uns vários minutos, voltar o olhar pra dentro de mim e tentar analisar minhas ações e direcioná-las para um rumo melhor, um rumo nunca antes tentado. Espero que consiga deixar de olhar um pouco para o meu EU e tentar olhar com mais carinho, atenção, misericórdia, e zelo para o meu próximo. Este próximo que não são só meus amigos do dia a dia, mas minha família, minha filha, meu esposo, o dono do mercadinho, o moço do lava jato, a recepcionista do meu médico.....enfim; olhar para meu próximo e tentar enxergar o modo como eu gostaria de ser tratada. Talvez assim, consiga praticar a máxima que propõe o poeta: “Gentileza gera gentileza”.

Feliz e transformadora Páscoa a todos!

Deise Machado é pedagoga e Orientadora Pedagógica da Secretaria Municipal da Educação de Araçatuba.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

LÚCIO


Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

As histórias que ouvimos dele, passadas por avós, tios e tias e até pela mãe, é de uma criança que, assim como milhares de outras no nordeste brasileiro, desde cedo aprendem o que é sofrer.
Lata d’água na cabeça de uma criança com apenas cinco ou seis anos de idade, léguas e mais léguas a pé para comprar um produto de primeira necessidade, o alimento parco do dia a dia. As brincadeiras são deixadas de lado para as horas vagas, para quando houver tempo, já que há muito trabalho e poucos trabalhadores.
As roupas são gastas... na verdade os primeiros anos de vida são como de bicho bruto, ou seja, a própria pele é a vestimenta. Moscas e mosquitos são companhia constante. A gente já nasce sabendo que qualquer hora irá morrer, ninguém precisar chegar a esta conclusão pra gente.
Como tantas outras crianças também, foi criado na garapa; uma água mal adoçada, esquentada no fogão de lenha, em substituição ao leite, artigo de luxo para muitos em terra tão hostil como a que ele viveu.
Quase não houve tempo para o estudo: inicialmente foi alfabetizado pela própria mãe, em condições precárias, em sala de aula improvisada, sem livro, nem caderno ou lápis que merecessem estar numa escola. Depois, foi completando os estudos aos poucos: num ano porque o trabalho o impedia, noutro porque já não tinha mais ânimo para prosseguir, e em um outro os retomou porque tomou consciência da importância da escolaridade na vida da gente. Até hoje é um eterno aprendiz. Quer fazer faculdade. E disse que é de Matemática.
Nas andanças da vida, foi encaminhado para um casamento – ou ajuntamento, é melhor – que não foi lá grandes coisas. O saldo positivo foram os filhos, que foram e são seu maior combustível para trabalhar, perseguir algum alvo e deixar-lhes abrigados, e uma outra sorte na vida conjugal. É verdade que não estão vivendo do modo como esperava, mas é preciso que a vida continue.
Já faz uns dois anos que ele encontrou um novo motivo para viver. Foi também nesse tempo que ele encontrou um outro motivo para sonhar e renovar suas esperanças. Ficou mais jovem nesse período, voltou a sorrir com mais frequência, está até mais bonito por conta desse seu novo amor.
Neste final de semana irá formalizar esse novo momento, esse novo marco em sua vida. Irá se casar. Dessa vez, de fato: com cerimônia, padrinhos, roupa na estica (que quase deixa a gente doido na hora de escolher a cor, a camisa com a qual conjugar e tudo o mais), uma festa para todos com os quais irá dividir sua alegria.
O nome dela é Célia. Uma mulher que encantou a todos nós com seu jeito objetivo e autêntico de ser. Que com maestria também conduziu uma família sozinha que, tal qual o Lúcio, é batalhadora, tem metas boas na vida e que também tem o direito de ser feliz.
O que posso desejar para vocês, meus irmãos, é que sejam muito felizes, que tenham uma vida de respeito e de carinho e que, daqui para frente, sejam cada vez mais unidos e cúmplices em tudo o que fizerem.
Feliz casamento para vocês dois. Boa sorte daqui para frente, Lúcio. Você merece.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O milagre da passagem


Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

Nesta semana, cristãos de todo o mundo comemoram o milagre da passagem. Como sinal da esperança no coração dos homens, desde a antiguidade judeus celebravam a páscoa como forma de dizer que “sim, é possível uma vida melhor”. É verdade que a primeira celebração não teve nada de ovos de chocolate, coelhinhos e bombons trufados. Pelo contrário: ervas amargas e sentimento de alerta. Afinal, tudo do velho deveria ser deixado para trás e uma vida nova se anunciava aos crentes.
O cordeiro sacrificado para alimentar todas as famílias na noite que antecedeu a diáspora judaica também o foi feito com a morte do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Cristo é o pão da vida, o alimento que nutre todos os que Dele provam e, conforme Ele mesmo garantiu, nunca mais têm fome ou sede.
Páscoa para mim sempre foi, e continuará sendo, o momento mais sublime de nossa fé. O natal é importante; também cumprimento de uma promessa realizada há milênios, como dádiva do céu: a esperança começa. Mas somente com a ressurreição é que temos a certeza e a revelação da plenitude divina de Jesus Deus. Porque não há novidade no nascimento. Todos nós nascemos. Também, não há novidade na morte. Todos nós morremos. Mas foi com a ressurreição que reascendemos nossas esperanças num futuro melhor, numa outra vida possível, na esperança de que a história não termina por aqui.
Diferente do sentimento de gastança e de comilança a que estamos submetidos em todos os feriados, na Páscoa deveríamos comer ervas amargas e reunir a família para pensar no Cordeiro que deu a sua vida por nós, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia para nos dar a esperança da vida.
A primeira páscoa também foi resultado da própria indignação de Deus frente aos mandos e desmandos de um louco faraó que humilhava os filhos de Javé. Como escravos e forasteiros eram perseguidos, violados em suas crenças e diminuídos como nação.
Nós também temos nossos governantes loucos, que tiram nosso sono com tantos impostos, que nos humilham como nação e que nos envergonham frente aos poderes do mundo. Vez ou outra (numa constância desmedida), somos manchete internacional com desvios de dinheiro, altos reajustes de salários, enquanto milhares de pessoas passam fome e perdem suas esperanças.
Este é tempo e o momento de renovarmos nossas esperanças e usarmos de nossa principal e melhor arma para sermos livres do cativeiro do Egito, dos loucos faraós que nos rodeiam: o voto.
Também comemos nossas ervas amargas diariamente, quando temos que encarar e vivenciar o capitalismo desenfreado, no qual também somos escravos, onde nossa força de trabalho são usados para enriquecer a poucos e para viver de forma desgraçada e aviltante. Por justiça social entendem alguns com risos, soberba e prepotência.
Mas há esperança. A ressurreição de Cristo foi no sentido de dizer que todos os reinos passam. Por mais que o tempo seja desgastante, por mais que a morte segure lá, por dois ou três dias, o Cordeiro de Deus, Ele ressurgirá com poder e glória para nos dar ESPERANÇA.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE. 

domingo, 25 de março de 2012

Olimpíada de Língua Portuguesa


Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

Amanhã, a partir das 19h, acontecerá no anfiteatro da Universidade Paulista o lançamento da 3ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Pelo segundo ano consecutivo, Araçatuba participa com 100% de suas escolas de Ensino Fundamental, envolvendo milhares de alunos nesta que é uma das mais importantes ações do Ministério da Educação, junto à Fundação Itaú Social, com orientação técnica do Cenpec, na formação continuada de professores da Educação Básica Nacional.
Histórico: A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro fundamentou-se na experiência do Programa Escrevendo o Futuro, desenvolvido pela Fundação Itaú Social e pelo Cenpec. Criado em 2002, o Programa constituía uma estratégia de mobilização dos professores por meio de um concurso de produção de textos, que teve três edições voltadas para professores de 4ª e 5ª série do Ensino Fundamental.

Em 2007, foi firmada parceria com o Ministério da Educação, o que possibilitou ampliar a abrangência das ações e a quantidade de anos escolares atendidos por essa iniciativa que passou a ser denominada Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, tendo sido incluída como uma ação do Plano de Desenvolvimento da Educação.

Em 2010, ano da 2ª edição da Olimpíada, inscreveram-se mais de 140 mil professores com uma estimativa de cerca de 7 milhões de alunos de 60 mil escolas públicas localizadas em quase todos os municípios do país (5.498).

Araçatuba: Nosso município participou pela primeira vez com 100% da Rede na 2ª edição da Olimpíada, com excelentes resultados. Não foram poucos os comentários de diretores, coordenadores, professores e alunos sobre o entusiasmo de escrever e produzir poemas, gênero destinado ao 5º ano. E o resultado da presença da formação e da Olimpíada em nossa Rede estendeu-se para além do concurso de textos, com alunos produzindo poemas espontaneamente meses depois de finalizado o concurso. Além disso, tivemos dois finalistas na fase estadual que, por pouco, não passaram para as duas últimas fases e foram ter, na ocasião, um encontro com o presidente Lula.

Formação: Ajuda preciosa é o apoio e dedicação dispensados pelas diretoras, coordenadores pedagógicos e professores de nossa Rede. É muito legal passar pelas escolas ao longo dos aproximadamente três meses nos quais as oficinas de texto são aplicadas e ver toda escola envolvida em leituras e mais leituras, produção de texto e, no final, os muitos saraus que ocorrem para fechar o ciclo. Muitas delas, inclusive, acabam por envolver as crianças das demais séries que não são contempladas pela Olimpíada. Os mais velhos declamam poemas para os mais novos, são oferecidas outras oficinas de criação e ilustração que não estavam programadas no material da OLP, pais e familiares são convidados a recitarem seus poemas prediletos etc. Enfim, uma grande festa da literatura.

Apoio: Tudo isso orquestrado pela Secretaria Municipal da Educação, sob a regência da secretária Beatriz Soares Nogueira e, é claro, com o entusiasmo do ávido leitor Cido Sério, nosso prefeito.
O desejo é que, assim como na edição anterior, nossas crianças sejam envolvidas com a magia da poesia. Amém!

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Diretor de Integração Nacional da União Brasileira de Escritores – UBE.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O mínimo é o máximo!

Casa Átrio - Minimalismo na Arquitetura

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um vôlei de futuro

Imagem retirada da internet sem crédito expresso.

Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com


Domingo é família, não é mesmo? Quer dizer, todo dia é dia da família, todo dia é dia de dizer “eu te amo” pra quem a gente ama. Mas, com a correria do dia a dia, acabamos por nos encontrar ocasionalmente, aos finais de semana; mesmo morando na mesma cidade.

No último domingo, eu e minha família, depois de um dia agradável com conversas jogadas fora, cutucões um no outro, um churrasco animado e saboroso, fechamos o dia no Ginásio de Esportes “Plácido Rocha”, prestigiando uma partida das quartas de final do Vôlei Futuro. Três sets a zero sobre o Medley de Campinas. E olha que até jogador da Seleção Brasileira estava no time adversário.

A mim, causa alegria ver um time de nossa cidade ter tanta visibilidade nacional. É muito bom ver Araçatuba no circuito esportivo e tão bem colocada a partir de uma notícia tão boa que é vida saudável em todos os aspectos. É gratificante ver crianças, jovens e adultos com os olhos brilhando, com o sangue fervendo de emoção, expectativa frente a cada saque, a cada cortada, nos vários lances emocionantes que a bola e uma equipe proporcionam.

Já escrevi aqui algumas vezes, mas sempre é preciso lembrar: quanto mais investirmos em esporte, arte, educação e cultura mais contribuiremos para com uma sociedade mais justa, mais harmônica, mais fraterna, mais sadia...

Fico triste quando vejo um presídio sendo construído. Fico triste quando olho uma fortaleza de concreto sendo erigida na paisagem urbana, com tanto dinheiro gasto, com tanta infraestrutra para abrigar vidas que, por um motivo ou por outro, falharam, não contribuíram socialmente.

Então, iniciativas como estas, do Vôlei Futuro, só fazem com que nós nos alegremos, com que nós vistamos a camisa e compremos a ideia, que é boa, que é honrosa, que é de Deus.

Parabéns à Prefeitura de Araçatuba que apoiou a iniciativa. Parabéns, também, a empresa Reunidas Paulista que enxergou o potencial esportivo da cidade e que optou pelo nosso município para fazer acontecer a proposta. Pela iniciativa dessas instituições é que podemos almoçar ou conviver com pessoas como, vejam só, o Ricardinho, um dos maiores levantares do mundo, com o Michael, o Lorena, o Piá e os demais entusiastas jogadores.

Araçatuba entra no circuito dos burburinhos nacionais nos finais de semana. Araçatuba entra na pauta das conversas durante a semana, dos apostadores de real em real para ver quem vai vencer, dos comentários de botecos que fazem parte da rotina do povo.

Terminar o domingo com a família, assistindo à partida do Vôlei Futuro, grande família do esporte, é muito bom. E ainda por cima com uma vitória de 3 a 0, muito melhor.



Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

quinta-feira, 15 de março de 2012

GRUPO DE ESTUDO


Iniciamos há 15 dias mais um Grupo de Estudo em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil da Secretaria Municipal da Educação de Araçatuba/SP, discutindo durante este semestre o tema "Biblioteca Escolar", em consonância com a Lei 12244/10, que determina que todas as escolas públicas e particulares brasileiras tenham biblioteca escolar até o ano de 2020, com profissional bibliotecário e acervo mínimo de um exemplar de livro por aluno matriculado.

Para isso, vamos discutir, refletir e propor ações para transformar o Sistema Municipal de Ensino de Araçatuba numa Rede de Ensino Leitora.

O referido Grupo de Estudo está em acordo com o projeto Araçatuba Leitora, que agrega várias ações ligadas ao livro e à leitura, especialmente os literários.

Participam do Grupo de Estudo em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, em sua maioria, diretoras do Sistema Municipal de Ensino e coordenadoras pedagógicas. O objetivo principal de envolver este público alvo é fazer com que as experiências com o livro e com a literatura se tornem, paulatinamente, uma política pública e não somente de governo.

A iniciativa é da Prefeitura de Araçatuba, por meio da Secretaria de Educação, com organização e mediação do Departamento de Formação Continuada. Os temas são discutidos em grupo, sob orientação do Prof. Antonio Luceni.

Abaixo, algumas imagens das integrantes da Equipe do Ensino Fundamental. No próximo encontro serão postadas fotografias da Equipe da Educação Infantil.







segunda-feira, 12 de março de 2012

AINDA HÁ



Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com




Infelizmente, ainda há...

Ainda há nas ruas pessoas passando fome e sofrendo toda sorte de barbáries por conta de delinquentes, a rigor, filhos do leite de cabra, do pão-de-ló, dos colégios caros, que veem os demais à sua volta como reles vassalos, além, é claro, dos outros filhos das trevas que, por estarem com os olhos vendados pela ignorância, não permitem que lhes resplandeça a luz da razão, do bom senso, da humanidade...

Ainda há nas ruas pessoas caídas no chão, servindo de tropeço pra tanta gente que, ao menos, se importa com tal imagem agressiva – ao menos deveria ser – aos olhos humanos. Noutro dia quase tropecei num destes, saindo de uma mercearia. O que o tinha levado ao chão? Será que teria sido droga? Será que teria sido uma vertigem? Será que teria sido agredido? Oh, meu Deus, será que era menino ou menina? Não sei. Não era possível saber. Estava tão embrulhado no chão, tão monocromático com suas roupas sujas e sua pele escura que praticamente ficava camuflado naquele canto de chão, de uma noite escura.

Ainda há pessoas pedindo cestas básicas no horário do almoço, basta ligar a televisão e ver. Às vezes, o pedido vem de nosso bairro, de nosso quarteirão, de nossa rua. Será que não é o nosso vizinho? Qual será o número da casa? É preciso do número porque não conheço o nome dele, não sei se ele está desempregado, se ele está precisando de ajuda. Será o meu vizinho?

Ainda há pessoas em filas subumanas esperando por uma migalha de comida, por um trapo a que chamam de cobertor, por um analgésico que é panaceia: sara dor de cabeça, dor de estômago, dor de dente e outras dores. Se brincar, sara até hemorragia, faz transplante de fígado e coração...

Ainda há gente escrevendo de qualquer jeito e pensando mais de qualquer jeito ainda, porque a escola ensina a fazer contas, ensina um português ruim, mas não ensina lições mais preciosas ainda: gente é pra ser feliz, gente é pra amar gente, gente é pra colaborar com gente...

Infelizmente, há muita coisa pra se mudar ainda. Numa sociedade como a nossa que privilegia o TER – ter carro, ter casa, ter muito dinheiro, ter relógio de marca e todas as parafernálias tecnológicas – ao invés de privilegiar o SER – ser gente humilde, ser companheiro e fraterno, ser um propagador da paz –, há que se mudar muita coisa ainda.

O Brasil se orgulha hoje – e é preciso que se orgulhe mesmo – de ser uma das cinco potências mundiais, mas há muita coisa pra mudar ainda. Nos rankings da educação e da cultura, nos rankings da justiça social e distribuição de renda, nos rankings do respeito à diversidade há muitos degraus a subir ainda.

É, ainda há muito o que se fazer...

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 5 de março de 2012

35

Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com

35

Enquanto estou na casa dos “trinta” ainda me relaciono bem. O problema para mim é imaginar a dos “enta”. Quarenta, cinquenta, sessenta, setenta... Aí a gente não sai mais dela. E o engraçado é que quero viver bastante. O lado de lá é duvidoso, incerto... e, ainda que tenhamos alguma fé, sempre estremecemos com a ideia de fechar os olhos definitivamente e passarmos para o outro plano. Ao mesmo tempo que mantemos um espírito de retidão, da ética, do bom senso e filantropia, somos humanos e cometemos os nossos erros, não é mesmo? Aí fica a dúvida: Será que esse ou aquele errinho será relevado na hora “h”?

Bromélia rosa

Ele chegou com um vaso enorme, uns laçarotes com papel celofane lilás, tudo combinando com o tom da flor, que despontava magnífica por entre as folhas da planta, rajadas tal qual tigres novos. Não me lembro de ele ter dado flores para ninguém. Nunca o vi dar flores nem para minha mãe. O presente era coletivo: dele, da mulher e da filha. Mas a lembrança foi dele. A escolha foi dele. Então, fiquei feliz em ter sido presenteado com flores pelo meu irmão que nem liga tanto pra essas delicadezas da vida. É, as coisas vão sendo alteradas mesmo. Mas a Letícia foi quem reclamou os louros: “Fui eu que comprei pra você!”.

Não tenho nada pra te dar

Como pode imaginar isso? Não sabe ela que é meu maior presente? Já não disse por dezenas de vezes que minha maior motivação, que meu sentido último para correr atrás de tudo, para continuar lutando e buscando melhor colocação social e intelectual é para prover-lhe o melhor que posso, uma melhor condição de vida? Meu melhor presente é a presença dela em minha vida.

Às espreitas feito um vulto

Ele foi todo de preto. Os cabelos pretos, num tom de Colorama do qual desconheço numeração; camisa preta risca-de-giz por fora da calça, como de costume; uma calça jeans azul marinho que se misturava ao negro das outras peças e um sapato mal lustrado, também preto. Ficou o tempo todo por ali, ora conversando com meu avô, ora saindo pra rua e arrumando pretexto para não ficar com a gente, até que desapareceu. Gostaria de entendê-lo melhor, percebê-lo neste modus vivendi que adotou como seu. Será que é feliz assim? Será que é o seu jeito de amar sua família?

Já estão bem velhinhos

Fui buscá-los logo cedo. Já estavam prontos: malinha na mão, caixas com os remédios do dia e um sorriso no rosto como cartão de visitas costumeiro. A idade já lhes faz curvar-se um pouco. O tom de voz já tem que ser mais alto para poder compreenderem o que falamos. Amo muito esses velhinhos. São meus segundos pais.

Por falta de dois, foram três

Sabe aquela coisa de estar junto? Foi somente isso. Precisava de representantes do meu lado fraterno, das minhas relações de amizade. E eles foram. Chegaram atrasados, mas foram. E lá ficamos durante uma boa parte da tarde.

Para não falar que não os citei

Meus outros irmãos e cunhadas também foram. Mas como cronista, os fatos que me chama a atenção é os que são descritos. Mas para não falar que não falei de vocês...

Para mim, foi um dia pra lá de especial. Não sou de comemorar aniversário, não. Mas faço questão de estar com minha família e amigos. Afinal, é a única coisa que levamos dessa vida e as únicas coisas que nos fazem ter apego por este plano.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Depois do carnaval

Antonio Luceni
aluceni@hotmail.com



Será que o Brasil começa a funcionar agora?

No País do carnaval, tudo é antes e depois dele. Acho que deveriam instituir os calendários de tudo só depois do carnaval. Início de aulas? Depois do carnaval. Pagamento de impostos? Depois do carnaval. Casamento, batizado, posse, compra e venda de imóvel... só depois do carnaval.

Aí, ficaria tudo mais fácil. Aí saberíamos quanto de fato restou do décimo terceiro salário ou das festas e férias de final de ano. Tudo para depois do carnaval. O reino do Momo é que deveria ditar as regras.

É somente depois do carnaval, também, que ganhamos a grata alegria – ao menos pra mim – de ter o horário normal de volta. Sim, porque essa coisa de horário de verão é uma invenção de quem não acorda cedo e assina ponto. O camarada fica inventando história porque ele pode dormir até tarde, não tem que passar dedo em ponto digital e tudo o mais que os proletários, como nós, têm que fazer.

Só depois do carnaval é que as cidades voltam ao seu ritmo normal, que o lixo diminui, os odores de urina e de fezes, próprios das cidades turísticas, matrizes do carnaval, começam a dar lugar aos cheiros característicos de cada local.

Só depois do carnaval que as pessoas voltam para o morro, à vida de rotinas nos lares abastados da classe média e dos ricos, nos trens e lotações abarrotados de gente, ao anonimato relegado ao pobre pelas elites dominadoras.

Depois do carnaval não tem rei e nem rainha, não há princesas e nem porta-bandeiras... todos agora são súditos do mesmo rei, que não é alegre como o Momo, que não é festeiro como o rei do carnaval.

O rebolado, depois do carnaval, é outro. Sim, porque rebolamos o ano inteiro, mas somente no carnaval é um rebolado bom, alegre, contagiante... Os outros rebolados, durante o ano, são para escapar da loucura do dia a dia, do aperto do final do mês, da ordem de prioridade das coisas para comer, vestir, morar, transitar...

Só depois do carnaval tiramos as fantasias, arrancamos os sapatos dos pés e ficamos mais confortáveis. Vemos que todo aquele brilho e glamour já não nos pertence mais, aí nos colocamos – ou somos colocados – no lugar a que nos destinaram: anonimato e silêncio.

Só uma coisa permanece depois do carnaval: as máscaras. Delas não abrimos mão. Máscaras de alegria, quando realmente estamos tristes e chateados; máscaras de convergência, quando não concordamos com uma série de coisas, mas não podemos falar porque corremos o risco perder o emprego; máscaras de religiosidade, quando demônios são aflorados à noite, nas esquinas de ruas duvidosas, nos desejos mais secretos que temos, sob os mais diferentes aspectos da vida.

É, parece mesmo que a vida só funciona no Brasil depois do carnaval.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Membro e diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.