sexta-feira, 10 de maio de 2013

SOBRE VITRUVIO, BRUNETE E ARQUITETURA



Volta e meia, talvez na falta de melhor assunto, ouvimos e lemos sobre arquitetura e urbanismo em velhos e cansados refrãos: “essa é a última tendência em arquitetura”. Desorientados, escutamos e piamente aprovamos o lugar-comum, que faz saia e blusa com outros bordões feitos do folclore local de ditos arquitetônicos descomprometidos, em afirmações pouco esclarecidas, mas incansavelmente repetidas. Essas e outras tantas frases servem de baliza para reprimir a reflexão e o debate, para prosseguir na repetição e empobrecer a discussão sobre arquitetura e urbanismo como arte, técnica, estética, ética, entre outros. Mas se arquitetura não é o que está “em alta”, o que é arquitetura?
De Architectura, de Marcos Vitruvio, é o mais antigo tratado de arquitetura que chegou aos nossos dias e serviu de base para a arquitetura clássica. Podemos considerar que foram os primeiros escritos que serviram como suporte para a reflexão, principalmente no que diz respeito aos métodos construtivos. Segundo o autor, os princípios conceituais da arquitetura deveriam ser "utilitas" (utilidade), "venustas" (beleza) e "firmitas" (solidez). Facilmente, poderíamos conversar sobre esses aspectos e analisar cada ato arquitetônico a partir de critérios pré-estabelecidos. Vitruvio falou de arquitetura enquanto falava de tectônica. Mas sabemos que, hoje, no bojo dessa “ciência-arte”, dimensões subjetivas estão intrincadas no debate e, consequentemente, falar de como se constrói não é suficiente para entender a arquitetura.
Na década de 1970, discutiu-se intensamente sobre o papel social do arquiteto. Esta não era uma discussão análoga à fala de Vitruvio. No decorrer do processo político de afirmação da cultura brasileira, muitos arquitetos escreveram e abordaram a arquitetura e a crítica a partir de perspectivas sociais, como é o caso de Lina Bo Bardi. Hoje em dia, para inteirar o discurso ético, temos o conceito de sustentabilidade pairando sobre os arquitetos. As manifestações da arquitetura sustentável no Brasil são cada vez mais numerosas, cada vez mais interessantes, cada vez mais pertinentes, mesmo que possam, muitas vezes, estar parcialmente equivocadas. Mas será que a arquitetura se restringe a discussões ideológicas, greenbuildings ou selos verdes?
Muitos reconhecem Niemeyer, outros tantos já ouviram falar, mas poucos realmente conhecem um dos grandes arquitetos do século XX. O que não dá pra negar é que cada um, advogando ou crucificando, diante de uma obra do velhinho comunista, tem uma opinião para oferecer. Um edifício que emociona. Pode ser isso arquitetura? Há quem fale de arquitetura como fala de roupa, cabelo ou sapato. Há também quem fale sobre cortinas, almofadas, tapetes, porta-retratos e cadeiras. Não que eu acredite que a moda ou o design de interiores sejam artes menores, mas em tempos de arquitetas ricas, “embotoxicadas” e com reflexões projetuais da profundidade de um pires, a discussão sobre arquitetura beira a futilidade.
Como pode, então, algo ser colateralmente arte e ciência, emoção e razão, funcionalismo e forma? E afinal, os arquitetos e urbanistas, o que fazem? Entre as tendências e o eterno, planejam cidades, desenham casas, plantam jardins, pensam em estruturas, batem lajes, pintam quadros e combinam almofadas? Como entender esse caráter tão multifacetado para não dizer, paradoxal? E pior, como escrever sobre a obra de “embotoxicadas” e Vitruvios? Dentre tantas questões, uma parece fazer mais sentido: qual a real e pura identidade da arquitetura?     
Do alto da minha pouca experiência, posso dizer que ainda não sei. Por enquanto, a gente pode discutir sobre o que aprendi, conhecer alguns arquitetos, se emocionar com algumas obras, aprender sobre a história e teoria da arquitetura e, quem sabe, se arriscar em algumas críticas num tom mais filosófico. Quem sabe não encontramos pistas sobre essa prática? Mas não crie demasiadas expectativas, já que, em muitos casos, ela beira a mediocridade, como consequência de sua inata condição de efemeridade e circunstância. Neste caso, com uma primeira pista, podemos descartar de imediato tais arquiteturas: não por ser arquitetura ruim, mas por não chegar a sê-lo.

Márcio Barbosa Fontão, graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

3 comentários:

  1. Marcio, para mim a melhor coisa que se disse sobre Niemeyer vi no filme A Casa do Lago - aliás, a minha filha vai refazer o caminho das locações propostos no próprio filme - sem dúvida um passeio por diferentes "jeitos" de ver a arquitetura.Mas gosto do que o autor fala sobre o Niemeyer: o arquiteto que melhor captou a importância da luz nas construções. Aproveito e leia tb o blog dela http://sassaricandoporai.wordpress.com/2013/05/09/sassaricando-por-aqui-game-of-thrones-the-exibihition/
    Go ahead!
    Leila Barbosa

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  2. Também sobre este assunto, as palavras de Françoise Choay:
    "...no que concerne a sobrevivência possível de uma arquitetura que não possa ser reduzida nem a um suporte midiático nem a uma categoria da arte "evento", devo precisar que minha descrição, não tendenciosa mas tendencial, aplica-se antes de tudo às vedettes dadas como exemplo nas escolas, nas revistas de arquitetura e na mídia. Pois existem ainda e um pouco por todos os lugares, desconhecidos que, pouco preocupados com publicidade, continuam, longe do ruído midiático, a praticar o ofício de arquiteto com todo seu corpo e em um permanente diálogo com os lugares e com os homens."

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